Aquela era a décima noite em que o senhor Semedo e o Jóquer se preparavam para ouvir mais uma das histórias contadas pelas cartas de jogar. O baralho estava espalhado sobre a mesa, com as cartas de face para baixo, e o dono da casa virou uma, constatando que era o Oito de Paus.
- Hoje vamos saber como é que um pobre ferreiro conseguiu enganar o diabo - anunciou este. - Acomodem-se bem, que a história é um pouco longa.
Os dois ouvintes assim fizeram e a carta de jogar iniciou a narração.
Era uma vez um ferreiro muito pobre que tinha muitos filhos. Era tão azarado que tinha como alcunha «O Ferreiro da Maldição que, quando não lhe falta o ferro, falta-lhe o carvão».
Um dia, sem ter que dar de comer aos filhos, foi pedir esmola, mas nem um pedacinho de pão conseguiu. Já vinha de volta quando encontrou um sujeito muito bem vestido, a quem estendeu a mão. O indivíduo perguntou-lhe por que é que ele andava a mendigar se naquele lugar havia tanto trabalho para fazer. O ferreiro falou-lhe então da sua desgraça.
O tal sujeito disse-lhe que era capaz de quebrar a maldição, mas, em troca, o ferreiro teria lhe dar três gotas de sangue do dedo mindinho da mão esquerda. Depois, teria de obedecer a qualquer chamada que lhe fizesse, fosse onde fosse, estivesse onde estivesse.





























