sexta-feira, 27 de março de 2020

A falta de paciência do jogo das paciências (8)


O senhor Semedo reclinou-se confortavelmete no sofá e o jóquer começou a contar a sua história:
- A minha origem perde-se na noite dos tempos. Já no Egipto dos faraós ganhava a vida e entreter a realeza. Durante séculos, fingi-me idiota e aproveitei todas as oportunidades para escarnecer de reis e papas. É claro que ninguém levava a mal. Era apenas um bobo da corte a dizer disparates inconsequentes. Mas o povo, na sua simplicidade, sabia a verdade e ria. Ria comigo e não de mim.
Para além da palavra, aprendi a dominar os instrumentos musicais e as artes circenses. Fui bufão, bardo e jogral, malabarista e palhaço.
Subi ao palco com mestre Will, em Inglaterra, com mestre Gil, em Portugal, e com muitos outros grandes dramaturgos, na Europa e nas Américas. Era o parvo a ganhar a cena, a dizer as verdades sem constrangimentos nem peias.

Enverguei as máscaras de Pulcinella e Arlecchino. Era o corcunda, o cabeça de vento, com manhas de trapaceiro, a enganar os «vecchi», os velhos ricos e avarentos, e a ajudar o enlace dos enamorados. E a perder o coração na indiferença de Columbina.
O czar da Rússia, Pedro o Grande, investiu-me como rei dos Samoiedas, tendo como território uma enorme ilha desabitada. Era uma piada, claro. Também D. Quixote me prometera o governo de uma ilha fantasiosa, quando o acompanhei como seu escudeiro. Outra piada.
De origem humilde, sentei-me à mesa dos poderosos, comi da sua comida e e bebi do seu vinho. Mas também passei fome e frio nas vielas dos subúrbios, onde fui escorraçado como um cão sarnento. Mas nunca me deixei vergar, nunca me submeti. Permaneci sempre, ao longo dos tempos, como um espírito livre, sem deus nem amo. Nunca perdi o sorriso trocista e a índole brincalhona. Por isso os ingleses me chamaram «joker». Por isso sou o jóquer.
O jóquer acabou a sua preleção com uma gargalhada espaventosa e uma vénia desmesurada. O senhor Semedo estava encantado com estas revelações, mas continuava intrigado:
- E como foste parar às cartas de jogar?
- Olha, uma americanice. As cartas de jogar terão sido inventadas pelos chineses, há cerca de três mil anos e espalharam-se pelo mundo inteiro. Até há pouco mais de um século, os baralhos tinham, no máximo, 52 cartas, embora haja baralhos com 40  ou 48. Ora, em finais do século 19, uns americanos, adeptos de um jogo chamado Eucre, decidiram que era necessário mais uma. E foi aí que decidi abraçar esta nova profissão. No entanto, como sabes, continuo livre e descomprometido. Não pertenço a nenhuma família ou naipe e tanto posso trazer sorte como azar, o que não deixa de ter piada. E eu adoro piadas!
Quando o jóquer se calou, foi a vez do senhor Semedo bater palmas. Estava felicíssimo por ter conhecido este divertido amigo.
- E agora, o que vem a seguir? - pergunto ele.
O jóquer coçou o nariz e depois propôs:
- E que tal se puséssemos as outras cartas a falar? Mas isso tem de ficar para amanhã.

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