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quarta-feira, 18 de maio de 2022

Esperto como o alho



Sempre que ouvia a expressão, o alho enchia-se de orgulho. Era a confirmação de que toda a gente reconhecia a sua superioridade intelectual.

Um dia, convencido da sua suprema esperteza, inscreveu-se nas Olimpíadas Internacionais da Matemática. No entanto, as coisas não lhe correram como esperava e teve um desempenho vergonhoso. Errou todos os problemas, classificando-se em último lugar.

Ficou então a perceber que nem no sector culinário teria futuro, porque era, afinal, uma cabeça de alho chocho.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

O comboio da desgraça

As doze carruagens do comboio 2020 estavam apinhadas. Na primeira, iam as chamadas «pessoas quadradas», na segunda, donzelas de rosto oval, na terceira, gordos de pança esférica. E assim sucessivamente, até à última, onde dormitavam alguns funcionários do Pentágono.
Era grande a reinação, quando se ouviu uma chiadeira medonha e a composição estacou. Atropelara uma vaquinha que ruminava no meio da via.
Vários passageiros protestaram logo:
- Não há viagem em que não aconteça alguma desgraça. Maldito 2020.

(Participação no desafio n.º 230 do blogue 77palavras.blogspot.com)

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Risco

Ela sabia que a sua decisão era um risco que corria, embora calculado. Queria ser livre, ao menos por uma noite. Passou o lápis pelo contorno das pálpebras e avermelhou os lábios. No espelho, parecia uma figura acabada de compor na tela de um pintor.
Pegou no pedaço de papel, desceu as escadas numa corrida e entrou no táxi.
Quando se sentou na plateia do teatro, sentiu que passara uma 
borracha sobre o marasmo da sua vida.

Participação no desafio n.º 203 do blogue 77palavras.blogspot.com

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Cromatose


Fazia associações cromáticas com tudo o que o rodeava. Começou na escola: as cinco vogais, eram, respectivamente, branco, verde, azul, castanho e preto. As notas musicais coincidiam com as sete cores do arco-íris...
Em adulto, tudo tinha uma cor intrínseca, independentemente da sua cor real. Por exemplo, um furacão era violeta, o trabalho, castanho, a desilusão, amarelo, a felicidade, azul...
O amor, curiosamente, era a única coisa que, para si, não tinha uma só cor... mas todas.

Desafio 197 do blogue 77palavras.blogspot.pt.
Emparelhar as primeiras quatro palavras com as quatro seguintes: furacão, trabalho, desilusão, felicidade / violeta, amarelo, azul, castanho

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Pastelaria




Saiu da pastelaria em passo bamboleante e sensual. Era alta, loura, com cintura fina e ancas largas. O curto vestido revelava umas pernas bem torneadas. O decote largo oferecia uma magnífica visão do peito generoso. Olhou-me com ar de desafio. Vinha a mordiscar o meu bolo favorito, uma "duchesse" coroada de doce creme branco.
Senti um aperto no estômago e uma vontade louca de a comer. Então, cheguei-me a ela, roubei-lhe o bolo e fugi a correr.

sábado, 28 de julho de 2018

Eclipse



Estavam ambos dentro do carro, no alto do monte, à espera do eclipse da lua.
Apenas o ruído abafado da discussão perturbava o silêncio:
- É de queijo.
- Não. É de chourição.
- Já disse: é de queijo!
- Estás enganada. É de chourição.
- Queijo!
- Chourição!
- Queres apostar?
- Por mim, está bem.
- A quê?
- Quem acertar fica com ela.
- Aceito.
Afinal, era de presunto.
Dividiram a sandes a meio e saborearam-na calmamente.
Quanto à lua, nada feito. Havia demasiadas nuvens.

domingo, 11 de março de 2018

Namoro frustrado



O rapaz apressou o burro com os calcanhares. A tarde ia avançada. Não tarda, seria noite. De repente, lembrou-se. As flores tinham ficado em cima da mesa da sala. E agora, com que cara se apresentaria à rapariga?
Viu uma roseira no quintal de uns vizinhos. Desmontou e tentou colher uma rosa. No lusco-fusco, sem uma faca, era difícil. Acendeu o isqueiro. Ao ladrar dos cães, mal teve tempo de montar de novo e partir à desfilada.

Desafio 137 do blogue 77palavras.blogspot.pt.
Palavras obrigatórias: burro, rosa, isqueiro.

domingo, 4 de março de 2018

O namoro dos melros

Desenho a caneta de tinta permanente de Carlos Alberto Silva.

O casal de melros veio namorar para o meu quintal.
Enquanto ela, com o seu vestido pardo, saltita pelo chão, impaciente e desconfiada, ele empoleira-se num ramo da laranjeira, exibindo o seu negro e lustroso fraque.
Ela crocita, na sua voz fraca:
- Despachemo-nos. O ninho arrefece e a chuva não tarda.
E ele responde, assobiando uma bela melodia:

Assim sejas tu, minha amada,
fértil como a chuva.
Que no teu ventre germine
a breve semente da eternidade.

(História em 77 palavras, sem tema. Homenagem aos 7 anos do blogue 77palavras.blogspot.pt e à Margarida Fonseca Santos.)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

A ladra do carrapito


Veio tudo à janela ao soar do apito.
Dois polícias perseguiam a ladra do carrapito.
Desta vez, não escapava.
Tinha sido apanhada em flagrante delito.
Enquanto o agente a algemava
de modo mui expedito
debatia-se e gritava:
- Larga-me, maldito!
Presente ao juiz, foi interrogada:
- Foi então a senhora que roubou o teodolito?
Mas ela ficou calada,
de olhos postos no chão.
Reunidas as provas, fez-se ouvir o veredito:
- Durante a próxima temporada,
medirá os azimutes da prisão.

(Desafio 135 do blogue «Histórias em 77 palavras»)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Pesadelo


Eu ia sozinho pela estrada, a ver o estrago provocado por aquele fenómeno estranho. Tudo começara com um estrépito no céu estrelado. O dano era estremo. Um turbilhão estrídulo deixara o mato estrinçado, as aves estripadas, as árvores estroncadas, os bichos estropiados. Que fora aquilo?
Até que o vi. Um grifo, rindo cavernosamente como riem todas as bestas mitológicas.
Apavorado, gritei:
- Vai-te! És um estronço sem estrutura, um verdadeiro estrupício cheirando a estrume.
E a seguir acordei.

sábado, 30 de setembro de 2017

Queixa do doente intermitente


Ai doutor, que terei eu,
Que me sinto intermitente:
Ora acordo com vigor
Ora me ponho dormente;
Ora me assola a febre
Ora gelo de repente;
Ora me dá o fastio
Ora como avidamente;
Ora me invade a tristeza
Ora pulo de contente;
Ora perco a paciência
Ora fico benevolente;
Ora me interesso por tudo
Ora tudo me é indiferente.
Diga-me lá, por favor,
Sendo médico experiente,
Isto é moléstia incurável
Ou acontece a toda a gente?

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Em campanha

Ilustração de Kaine Lacerda
As comitivas das duas listas concorrentes à associação de estudantes do colégio feminino cruzam-se num corredor. Um encontrão incendeia os ânimos. Começam as provocações. Esgotando-se os argumentos, vêm os insultos, que sobem de tom e baixam de nível.
- Sua esta, sua aquela!
- Isso és tu e a tua mãezinha!
Até que surge o maior ultraje, a ofensa suprema:
- Sabes o que és, sabes?
- Não, mas tu vais dizer-mo, não é?
- Vou. És uma grandessíssima filha da… po-lí-ti-ca!

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O desatino de Vermelhusca


Vermelhusca foi levar uma bucha à avó enferma. Ignorando as advertências da mãe, deambulou pela mata. Apareceu-lhe um lobo de falinhas mansas e ajustaram uma corrida.
Em três tempos, o bicho alcançou a casa da velha. Atemorizada, a senhora encafuou-se no guarda-fatos. Com artes de transformista, o carnívoro aninhou-se na cama dela.
Ao chegar, Vermelhusca desatinou com aqueles preparos: era tudo em grande, sobretudo os dentes...
Acudiram uns lenhadores, que escorraçaram a fera, salvando avó e neta.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O pesadelo do Tio Arlindo


O tio Arlindo acordou sobressaltado: parecera-lhe o estrondo de uma porta! Àquela hora, isso só podia significar uma coisa: estava a ser assaltado. Levantou-se devagarinho, tentando atenuar os rangidos da cama. Calçou os chinelos e pegou na caçadeira. Pé ante pé, avançou pelo corredor. Silêncio. Será que os ladrões estavam à espera de o apanhar desprevenido? De subido, um clarão iluminou a janela. Segundos depois, novo estampido. Arlindo suspirou de alívio. Pura ilusão: era apenas uma trovoada.

[Participação no Desafio 94 do blogue «77 palavras», de Margarida Fonseca Santos]

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O massacre do OE13






- Bzzz… Ai ‘miga, o que é aquilo que ali vem?
- Foge, ‘miga! Ele quer dar cabo de nós.
A mais gorda das melgas, no entanto, não escapa ao grosso maço de papel. A outra, escanzelada, mas ágil, lamenta-se:
- Coitadinha… Bzzz… Eu bem lhe disse que sugar um vampiro era muito arriscado...
E foge dali, aproveitando a confusão de folhas pelo ar. Na última que chega ao chão, pode ler-se: «Orçamento de Estado para 2013».

Resposta ao desafio nº 24 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Artesanato trágico




Era um leitão de cortiça com uma rolha por nariz. Estava na montra, entre um almofariz de pedra e um despertador em forma de bola de ténis. Decidi oferecê-lo ao glutão do Alfredo. Entrámos na loja, mas uma vespa enfurecida atirou-se a mim. Tive de me defender com um rolo de papel que estava ali à mão. Um golpe mal calculado e o bácoro desfez-se em pedaços. Agora... vou ter de lhe oferecer um a sério. Assado.

Resposta ao desafio nº 23 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.


domingo, 16 de setembro de 2012

A marcha do futuro



Primeiro, pingaram algumas gotas dispersas, qual chuvisco de Verão. Gota a gota, o caudal engrossou, até se transformar numa torrente imparável. E a torrente fez-se rio, um rio de gente corajosa, ocupando as cidades.
Vieram novos e velhos, trazendo a força dos sonhos atraiçoados, uma réstia de esperança, um grito na garganta. Por isso, armaram-se apenas com palavras, algumas muito duras… porém verdadeiras. Encheram praças e avenidas, quebrando a letargia de um país adiado. Exigindo um futuro!

Resposta ao desafio nº 18 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.

sábado, 1 de setembro de 2012

O anel de Lena




Lena é uma jovem alegre e desinibida que adora roupas coloridas. O seu riso contagiante faz com que todos a estimem. Sabem que Lena perdeu o pai num acidente trágico e que, por isso, a mãe sofre de uma constante depressão. E que é a coragem, a alegria e o amor da filha que a mantêm viva…
No entanto, em segredo, Lena afaga o pequeno anel que o pai lhe deu e chora amargamente a sua ausência.

Resposta ao desafio nº 17 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.

O irresistível aroma da tarte de amora




Da janela entreaberta, desprendia-se um aroma irresistível. Pedro e Afonso largaram a bola e aproximaram-se, sorrateiros, do quintal da vizinha. Mal os pressentiu, o anafado gato amarelo bufou e esgueirou-se para cima de uma árvore.
Parados debaixo do parapeito, puseram-se à escuta, até se certificarem de que não havia ninguém na casa. Pedro ajoelhou-se, Afonso subiu e lançou a mão à bela tarte de amora. De repente, sentiu que alguém o puxava para dentro. Tinha sido apanhado!

Resposta ao desafio nº 17 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Castelo das Palavras


Castelo de Newschwanstein, na Baviera, Alemanha.
No Castelo das Palavras, havia salas onde se guardavam todos os tipos de palavras. A Sala das Palavras Macias tinha palavras como «peluche», «espuma» e «almofada», mas também «carícia», «beijo», «mãe» e outras do género. A Sala das Palavras Ancestrais tinha palavras como «mundo», «fonte» e «nascimento». A Sala das Palavras Magoadas tinha palavras como «ausência», «lágrima», «fome» ou «solidão». Mas havia também a Sala das Palavras Terríveis, onde se guardava a mais terrível de todas: «morte».

Resposta ao desafio nº 16 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.