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domingo, 17 de janeiro de 2021

O caudilho dos calhaus-com-olhos


No tempo em que havia calhaus-com-olhos, estes abominaram o sistema de governo democrático que tinham e pediram ao seu deus que lhes desse um caudilho que castigasse todos os que não eram cidadãos «de bem».

Desdenhando a tolice deles, o deus dos calhaus-com-olhos atirou-lhes um pau, dizendo com voz trovejante:

- Eis o vosso caudilho. Usai-o para fustigar quem bem entenderdes.

O pau fez um tal estrondo ao cair que os calhaus-com-olhos entraram em pânico e foram-se esconder. Passado algum tempo, um calhau-com-olhos mais destemido que os outros levantou a cabeça, à procura do novo caudilho. Aproximou-se e tocou-lhe, mas este, como seria de esperar, não se mexeu. Subiu então para cima dele… e os outros seguiram-no. Tinham perdido o medo e isto levou-os a desprezar o seu novo caudilho.

- Este caudilho - disseram eles ao seu deus - é uma vergonha. Por favor, manda-nos um que tenha autoridade absoluta e saiba castigar severamente quem não é «de bem», como nós.

Enfadado com tanta imbecilidade, o deus dos calhaus-com-olhos mandou-lhes um sapo-de-loiça.

O sapo-de-loiça começou de imediato a discursar aos calhaus-com-olhos, com a sua voz esganiçada:

- O vosso deus confiou-me a difícil mas honrosa missão de transformar o mundo de acordo com as aspirações de todos os calhaus-com-olhos.

Seguidamente, começou a bolsar as maiores alarvidades, insultando os seus adversários e incitando ao ódio contra todos os que não eram cidadãos «de bem», isto é, todos os que não eram calhaus-com-olhos.

Os calhaus-com-olhos exultaram e agradeceram ao seu deus com grandes manifestações de júbilo:

- Obrigado, nosso deus, este caudilho que nos mandaste foi criado verdadeiramente à nossa imagem e semelhança. Amém!

[Adaptado da fábula de Esopo «As rãs que queriam um rei». Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.]

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O cão do faroleiro


Pertenciam ambos a mundos diferentes. E havia a diferença de idades: 14 e 41.
Conheceram-se na ilha Berlenga.
Caminhava ele na enseada deserta e ela provocou-o com uma chapada de água.
Um simples olhar deflagrou em amor súbito. Mas não podiam…
- Sou muito velho – disse ele –. Já tenho 14 anos.
- Eu ainda sou jovem – respondeu ela –. Tenho 41.
Ele ladrou e correu escarpa acima.
Ela bateu a grande barbatana e partiu mar adentro.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A partilha




Um cão e um gato bifaram uma bela posta de lombo assado.
«Agora, vamos manjá-la juntos», rosnou o cão. «Está bem, anda», bufou o gato, arrebatando o pitéu para cima de um telhado.

[Participação no desafio 16 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».

sábado, 14 de julho de 2012

O camelo o burro e a água


Ilustração de Merli (Brasil) para o livro infantil com o mesmo título.
Especialistas em meter água, foram corridos do zoo à mangueirada. O camelo foi para Massamá, borrifar o jardim e o burro foi para Tomar, regar a horta.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Discurso eleitoral



- Votem em mim - disse o lobo -. Chegámos a uma nova era. Lobos e ovelhas são agora amigos inseparáveis.
Embora desconfiadas, as ovelhas deixaram-se ir na conversa. Azar o delas.

[Participação no desafio 16 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A dança das cadeiras


Veio o primeiro porco e sentou-se. Organizou o banquete a seu jeito, comeu quanto quis e aos restantes bichos deixou umas migalhas. O segundo, o terceiro e o quarto fizeram igual, bem como os que se lhe seguiram. Quando já não havia nem migalhas para distribuir, acusaram os outros bichos de viver acima das suas (deles) possibilidades...