Na manhã seguinte, o homem acordou muito bem disposto. Bocejou, espreguiçou-se e pousou, com lentidão, um pé de cada vez no tapete do quarto. Depois, correu a persiana e entreabriu a janela, deixando entrar o ar matinal. Por um momento, ficou-se a olhar lá para fora, embevecido pelo chilreio dos pássaros, nas árvores da rua vazia.
Dirigiu-se então à sala. As cartas de jogar continuavam em cima da mesa. O jóquer estava encostado à pilha, como um retrato na sua moldura, a boca num esgar de riso e os olhos trocistas a vigiar quem entrava.
- Bom dia! - disse o homem.
Mas não obteve resposta. Repetiu a saudação e apenas o silêncio o secundou. A confusão voltou a toldar-lhe o entendimento. Então, tudo o que se lembrava de ter acontecido na noite anterior era mentira?
Em cima da mesa da sala estava apenas um banal baralho de cartas, mudo e quedo como todos os baralhos de cartas normais. Que raio, tinha a sensação de ter sido tudo tão real... Era capaz de jurar que sim... Afinal, fora um delírio.

















