terça-feira, 24 de março de 2020

A falta de paciência do jogo das paciências (1)



Estava um homem confinado no seu domicílio, por razões que não interessam para agora. Sentindo-se aborrecido por não ter nada para fazer, pegou num baralho de cartas e pôs-se a organizar um jogo de paciências.
Começou por baralhar bem as cartas e colocou-as em várias pilhas sobre a mesa, com a face virada para baixo. Depois, preparou-se para virar a primeira carta de cada pilha, de forma a organizar sequências de cada naipe.
Assim que virou a primeira carta, foi surpreendido por uma voz irritada, que lhe disse:
- Deixa-me em paz, que hoje não estou para brincadeiras!

segunda-feira, 23 de março de 2020

O troll que não quis ficar em casa


No país dos contos de fadas, andava tudo em alvoroço. A bruxa Canhestra, desastrada por natureza, tinha-se enganado numa das suas poções mágicas e mandara a cabana pelos ares. Sobre todo o território, pairava uma névoa esverdeada e pestilenta, que provocava reacções esquisitas em quem a inalava. A começar pela própria bruxa Canhestra, que ficou transformada numa galinha saltitona e passou o resto dos seus dias a saltar à corda e a pôr ovos de borracha.
O centauro Serafim, carteiro de profissão, que ia a passar naquele momento, ganhou um apetite voraz por papel e comeu as cartas todas que tinha para distribuir. A seguir, invadiu a biblioteca e começou a devorar enciclopédias mágicas e romances de encantar. Tiveram de correr com ele à vassourada, senão não tinha restado qualquer livro nas estantes, o que seria uma tragédia.
A Ratinha Vaidosa, que vinha a chegar das compras à sua casa-cogumelo, desatou a cantar ópera em altos berros, com a sua vozinha desafinada. O que fez com que os vizinhos, ensurdecidos pela cantoria, a tivessem de amordaçar violentamente.

sexta-feira, 20 de março de 2020

O monstro minúsculo que queria ser rei


Versão ebook disponível no ISSUU

Num lugar muito longe daqui, havia um monstro minúsculo, tão pequeno, tão pequeno que ninguém conseguia vê-lo à vista desarmada. No entanto, tinha muito mau feitio e uma enorme ambição: tornar-se num gigante e ser rei absoluto. Como tinha nascido com uma coroa na cabeça, achava que tinha direito a dominar todo o planeta.
Um dia, foi consultar uma bruxa malvada muito poderosa e disse-lhe:
- Ouve lá, ó bruxa maléfica, estou decidido a tornar-me num gigante e a ser o rei absoluto deste planeta. Se me ajudares a consegui-lo, recompensar-te-ei e nomear-te-ei minha Primeira Conselheira.
A princípio, a bruxa achou que aquele monstro minúsculo não devia estar bom da cabeça. Ainda por cima, manifestava uma irritante falta de respeito. Chegou mesmo a pensar lançar-lhe um feitiço que o transformaria num sapo ou, como era tão pequeno, num grão de pó. Mas depois reconsiderou, pensando que aquilo até podia ser divertido e respondeu:
- Combinado! Se fizeres tudo o que eu disser, ajudo-te a conseguir o que pretendes.
Virou costas e foi para junto do seu caldeirão, criar um feitiço especial.

segunda-feira, 16 de março de 2020

O caçador azarado


Um homem abriu o frigorífico e deu-se conta de que não tinha nada para comer. Pegou então na espingarda e foi tentar caçar alguma coisa para o jantar.
Depois de muito farejar, deu com um rebanho de pizzas a pastar numa clareira. Aproximou-se cautelosamente, mas as pizzas deram por ele e fugiram espavoridas, sem que o homem tivesse sequer tempo de apontar a arma.
Mais à frente, vislumbrou uma gorda e indolente lasanha pendurada numa árvore. Mirou à cabeça da bicha e disparou, certo de que esta não escaparia. No entanto, a lasanha encolheu-se e a bala rasou-lhe as orelhas, sem lhe causar qualquer dano. Enquanto o homem recarregava a arma, a lasanha, embora lenta, escapuliu-se.
Já um pouco impaciente, o homem vasculhou o mato, em busca de caça, até que viu uns pastéis de bacalhau à entrada das tocas. Assim que se aproximou, os pastéis recolheram-se, num abrir e fechar de olhos.
Mais à frente, ouviu o grasnar longínquo de umas chamuças, que passaram a voar demasiado alto e o homem não arriscou desperdiçar mais uma bala.
Desanimado, o homem voltou para casa de mãos a abanar. E ao jantar, não teve outro remédio senão comer a espingarda, que era de massapão.

quarta-feira, 11 de março de 2020

As perguntas fugitivas

Um conhecido jornalista decidiu cozinhar umas perguntas para o jantar. Acendeu o lume, espalhou umas pedras de sal sobre as questões e colocou-as na grelha, muito bem alinhadas.
No entanto, as ditas-cujas eram incómodas e não paravam quietas. Passado um pouco, quando o calor das brasas se tornou insuportável, saltaram do grelhador e fugiram dali a gritar.
O conhecido jornalista teve então de se contentar com uma açorda de «fèdiveres» da semana anterior. Quem o mandou a ele querer alambazar-se com perguntas incómodas ao jantar?

O espirro traquinas


Andava um espirro a jogar à macaca sozinho numa rua da cidade, quando se viu rodeado por uma turba de moradores, que barafustava com ar ameaçador:
- O que andas aqui a fazer, malvado?
- Raspa-te, que não te queremos aqui.
- Vai lá para a tua terra.
- Pensas que te deixamos vir para a nossa rua lançar o pânico e a doença? Estás muito mal ensaiado...
O espirro bem tentou argumentar, mas em vão:
- Mas eu só quero jogar à macaca...
- À macaca? Não desconverses. Onde há um espirro, há uma tosse e onde há uma tosse há uma febre. Espirros, tosses e febres são exactamente o tipo de coisas que não queremos por cá.
Quando o espirro tentou contra-argumentar, os outros atiraram-se a ele, gritando:
- Anda cá, espirro maldito, que já te damos o arroz.
E tentaram caçá-lo com umas redes de apanhar borboletas que traziam nas mãos.
No entanto, o espirro era mais rápido e escapava-se sempre.
A coisa até era divertida, pensava o espirro. Primeiro, não o deixavam jogar à macaca, mas agora estavam todos a jogar à apanhada com ele. E ele estava a ganhar!
De repente, o espirro sentiu uma enorme comichão dentro do nariz, disse «Atchim!» e desapareceu no ar.
Os moradores deram vivas inflamados e foram a correr para casa lavar as mãos e a goela com uma solução alcoólica, durante um minuto e vinte segundos. Mas de nada lhes valeu...

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Cromatose


Fazia associações cromáticas com tudo o que o rodeava. Começou na escola: as cinco vogais, eram, respectivamente, branco, verde, azul, castanho e preto. As notas musicais coincidiam com as sete cores do arco-íris...
Em adulto, tudo tinha uma cor intrínseca, independentemente da sua cor real. Por exemplo, um furacão era violeta, o trabalho, castanho, a desilusão, amarelo, a felicidade, azul...
O amor, curiosamente, era a única coisa que, para si, não tinha uma só cor... mas todas.

Desafio 197 do blogue 77palavras.blogspot.pt.
Emparelhar as primeiras quatro palavras com as quatro seguintes: furacão, trabalho, desilusão, felicidade / violeta, amarelo, azul, castanho

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Pastelaria




Saiu da pastelaria em passo bamboleante e sensual. Era alta, loura, com cintura fina e ancas largas. O curto vestido revelava umas pernas bem torneadas. O decote largo oferecia uma magnífica visão do peito generoso. Olhou-me com ar de desafio. Vinha a mordiscar o meu bolo favorito, uma "duchesse" coroada de doce creme branco.
Senti um aperto no estômago e uma vontade louca de a comer. Então, cheguei-me a ela, roubei-lhe o bolo e fugi a correr.

sábado, 28 de julho de 2018

Eclipse



Estavam ambos dentro do carro, no alto do monte, à espera do eclipse da lua.
Apenas o ruído abafado da discussão perturbava o silêncio:
- É de queijo.
- Não. É de chourição.
- Já disse: é de queijo!
- Estás enganada. É de chourição.
- Queijo!
- Chourição!
- Queres apostar?
- Por mim, está bem.
- A quê?
- Quem acertar fica com ela.
- Aceito.
Afinal, era de presunto.
Dividiram a sandes a meio e saborearam-na calmamente.
Quanto à lua, nada feito. Havia demasiadas nuvens.

domingo, 11 de março de 2018

Namoro frustrado



O rapaz apressou o burro com os calcanhares. A tarde ia avançada. Não tarda, seria noite. De repente, lembrou-se. As flores tinham ficado em cima da mesa da sala. E agora, com que cara se apresentaria à rapariga?
Viu uma roseira no quintal de uns vizinhos. Desmontou e tentou colher uma rosa. No lusco-fusco, sem uma faca, era difícil. Acendeu o isqueiro. Ao ladrar dos cães, mal teve tempo de montar de novo e partir à desfilada.

Desafio 137 do blogue 77palavras.blogspot.pt.
Palavras obrigatórias: burro, rosa, isqueiro.

domingo, 4 de março de 2018

O namoro dos melros

Desenho a caneta de tinta permanente de Carlos Alberto Silva.

O casal de melros veio namorar para o meu quintal.
Enquanto ela, com o seu vestido pardo, saltita pelo chão, impaciente e desconfiada, ele empoleira-se num ramo da laranjeira, exibindo o seu negro e lustroso fraque.
Ela crocita, na sua voz fraca:
- Despachemo-nos. O ninho arrefece e a chuva não tarda.
E ele responde, assobiando uma bela melodia:

Assim sejas tu, minha amada,
fértil como a chuva.
Que no teu ventre germine
a breve semente da eternidade.

(História em 77 palavras, sem tema. Homenagem aos 7 anos do blogue 77palavras.blogspot.pt e à Margarida Fonseca Santos.)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

A ladra do carrapito


Veio tudo à janela ao soar do apito.
Dois polícias perseguiam a ladra do carrapito.
Desta vez, não escapava.
Tinha sido apanhada em flagrante delito.
Enquanto o agente a algemava
de modo mui expedito
debatia-se e gritava:
- Larga-me, maldito!
Presente ao juiz, foi interrogada:
- Foi então a senhora que roubou o teodolito?
Mas ela ficou calada,
de olhos postos no chão.
Reunidas as provas, fez-se ouvir o veredito:
- Durante a próxima temporada,
medirá os azimutes da prisão.

(Desafio 135 do blogue «Histórias em 77 palavras»)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Raspanete galáctico


Calados e quietos! Meninos, ganhem juízo! Tu, Quim, não provoques o Donald! E tu, Donald, não te metas com o Quim. Deixem-se de parvoíces, que estão a incomodar a vizinhança.
Se não ganham juízo, ponho um a cada canto. Mais: se for preciso, meto-vos, cada um, em cantos opostos do mundo.
Espera lá! Vocês já estão em cantos opostos do mundo e, mesmo assim, não param de se azucrinar e de azucrinar a vizinhança.
Acho que vou ter de vos enfiar numa nave espacial e mandar-vos para a lua. Tiro de lá o homem com o molho de silvas e ponho-vos no lugar dele.
Não, para a lua, não. É mesmo ali ao lado e vocês desarrumavam aquilo tudo num instante. Para além de incomodar a vizinhança de dia, passavam a incomodá-la também de noite, na lua cheia, na lua nova, no quarto minguante e no crescente. Safa!
Acho que o foguetão terá de ir um bocado mais longe. Sei lá, para além dos limites do sistema solar. E aí, sim, podem fazer as vossas coboiadas à vontade, que os vizinhos já não se vêm cá queixar. E podem levar os vossos minúsculos penduricalhos (e umas lupas), para se divertirem a comparar quem o tem maior.
Com um pouco de sorte, numa bela tarde de Verão, a vizinhança ouvirá um traquezinho ligeiro vindo das profundezas do universo. Que é quando vocês, finalmente, rebentam um com o outro e esta história acaba de vez. Irra!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ordenamento

A julgar pelo que se ouve por aí, para além do tal ordenamento florestal, o país precisa também de algum «ordenamento mental».

Chiu! (2)

- Olha lá, também vais à manifestação?
- Chiu!
- Já me calei.

Chiu!

Pensou ir à «manifestação silenciosa»,
mas quando andava com gases
era pior que uma buzina de camião.

Censura

A saCristas conjugando argumentos
para a moção de censura:
- Eu calipto, tu caliptas, ele calipta...

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Demissão

- Demitam a ministra! - berrava o bode "espiatório" -. Aplaquemos os deuses com um sacrifício político. O resto, é deixar arder...

sábado, 14 de outubro de 2017

Sexta 13

Ontem foi sexta 13 e não dei por nenhuma bruxa a circular de vassoura. Já de carro...

Pedro e o... Diabo

Pedro profetizava a vinda do Demo, mas a este não lhe apetecia vir.
Farto de ser invocado em vão, o Diabo carregou com Pedro.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Pão pão

- Quero um pão, se faz favor.
- Quer um destes? Ou um destes? Ou destes... Temos 37 variedades.
- Não, só quero um pão.

Ó Nesco!

- Alô? É só pa dezer que me derrisquem dessa coisa da ónesco, ó lá uquié. Sisso num presta pós camones, tamém num quero. Óbrigadinho.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Terrorismo intestinal

Comprou repolho, feijão, cebolas e ovos.
Preparava-se para um atentado com gás letal
depois do jantar.

Pesadelo


Eu ia sozinho pela estrada, a ver o estrago provocado por aquele fenómeno estranho. Tudo começara com um estrépito no céu estrelado. O dano era estremo. Um turbilhão estrídulo deixara o mato estrinçado, as aves estripadas, as árvores estroncadas, os bichos estropiados. Que fora aquilo?
Até que o vi. Um grifo, rindo cavernosamente como riem todas as bestas mitológicas.
Apavorado, gritei:
- Vai-te! És um estronço sem estrutura, um verdadeiro estrupício cheirando a estrume.
E a seguir acordei.

Cornada

Relatava a tourada para a rádio quando foi colhido
por uma vaca tresmalhada.
- Coitado, até era um «cornista» simpático...

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Nativo digital

Mandou tatuar todo o corpo com zeros e uns.
Não percebia peva de computadores, mas agora
sentia-se um verdadeiro «nativo digital».

A bebida

Era a primeira vez que bebia aquilo.
Pouco depois, declarava:
- Acho que não me absinto bem!

Estudos «científicos»

De acordo com um estudo do famoso cientista I. N. Sone,
«quando não se consegue dormir, fica-se com sono».

(Já antes o seu colega «F. A. Meentaw» tinha concluído noutro estudo que
«quando não se come, fica-se com fome».)

domingo, 8 de outubro de 2017

«Dezentendimento»

- Ontem há noite adurei e tu gostas-te? - teclou ele.
- Sim, gosto-me. Adeus! - concluiu ela.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Efeméride

Também ele celebrou o Dia do Animal.
Não tinha cão nem gato, mas tinha piolhos.