Contos curtos de Carlos Alberto Silva, resultado das colaborações na página do Facebook «Escrita de microficção», no blogue «77 palavras» e outros. [Todos os textos são redigidos em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
sexta-feira, 31 de janeiro de 2020
Cromatose
Fazia associações cromáticas com tudo o que o rodeava. Começou na escola: as cinco vogais, eram, respectivamente, branco, verde, azul, castanho e preto. As notas musicais coincidiam com as sete cores do arco-íris...
Em adulto, tudo tinha uma cor intrínseca, independentemente da sua cor real. Por exemplo, um furacão era violeta, o trabalho, castanho, a desilusão, amarelo, a felicidade, azul...
O amor, curiosamente, era a única coisa que, para si, não tinha uma só cor... mas todas.
Desafio 197 do blogue 77palavras.blogspot.pt.
Emparelhar as primeiras quatro palavras com as quatro seguintes: furacão, trabalho, desilusão, felicidade / violeta, amarelo, azul, castanho
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
Pastelaria
Saiu da pastelaria em passo bamboleante e sensual. Era alta, loura, com cintura fina e ancas largas. O curto vestido revelava umas pernas bem torneadas. O decote largo oferecia uma magnífica visão do peito generoso. Olhou-me com ar de desafio. Vinha a mordiscar o meu bolo favorito, uma "duchesse" coroada de doce creme branco.
Senti um aperto no estômago e uma vontade louca de a comer. Então, cheguei-me a ela, roubei-lhe o bolo e fugi a correr.
sábado, 28 de julho de 2018
Eclipse
Estavam ambos dentro do carro, no alto do monte, à espera do
eclipse da lua.
Apenas o ruído abafado da discussão perturbava o silêncio:
- É de queijo.
- Não. É de chourição.
- Já disse: é de queijo!
- Estás enganada. É de chourição.
- Queijo!
- Chourição!
- Queres apostar?
- Por mim, está bem.
- A quê?
- Quem acertar fica com ela.
- Aceito.
Afinal, era de presunto.
Dividiram a sandes a meio e saborearam-na calmamente.
Quanto à lua, nada feito. Havia demasiadas nuvens.
domingo, 11 de março de 2018
Namoro frustrado
O
rapaz apressou o burro com os calcanhares. A tarde ia avançada. Não tarda,
seria noite. De repente, lembrou-se. As flores tinham ficado em cima da mesa da
sala. E agora, com que cara se apresentaria à rapariga?
Viu
uma roseira no quintal de uns vizinhos. Desmontou e tentou colher uma rosa. No
lusco-fusco, sem uma faca, era difícil. Acendeu o isqueiro. Ao ladrar dos cães,
mal teve tempo de montar de novo e partir à desfilada.
Desafio 137 do blogue 77palavras.blogspot.pt.
Palavras obrigatórias: burro, rosa, isqueiro.
Palavras obrigatórias: burro, rosa, isqueiro.
domingo, 4 de março de 2018
O namoro dos melros
![]() |
| Desenho a caneta de tinta permanente de Carlos Alberto Silva. |
O casal de melros veio namorar para o meu quintal.
Enquanto ela, com o seu vestido pardo, saltita pelo chão, impaciente
e desconfiada, ele empoleira-se num ramo da laranjeira, exibindo o seu negro e
lustroso fraque.
Ela crocita, na sua voz fraca:
- Despachemo-nos. O ninho arrefece e a chuva não tarda.
E ele responde, assobiando uma bela melodia:
Assim sejas tu, minha amada,
fértil como a chuva.
Que no
teu ventre germine
a breve semente da eternidade.
(História em 77 palavras, sem tema. Homenagem aos 7 anos do blogue 77palavras.blogspot.pt e à Margarida Fonseca Santos.)
sábado, 10 de fevereiro de 2018
A ladra do carrapito
Veio tudo à janela ao soar do apito.
Dois polícias perseguiam a ladra do carrapito.
Desta vez, não escapava.
Tinha sido apanhada em flagrante delito.
Enquanto o agente a algemava
de modo mui expedito,
debatia-se e gritava:
- Larga-me, maldito!
Presente ao juiz, foi interrogada:
- Foi então a senhora que roubou o teodolito?
Mas ela ficou calada,
de olhos postos no chão.
Reunidas as provas, fez-se ouvir o veredito:
- Durante a próxima temporada,
medirá os azimutes da prisão.
(Desafio 135 do blogue «Histórias em 77 palavras»)
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Raspanete galáctico
Calados e quietos! Meninos, ganhem juízo! Tu, Quim, não provoques o Donald! E tu, Donald, não te metas com o Quim. Deixem-se de parvoíces, que estão a incomodar a vizinhança.
Se não ganham juízo, ponho um a cada canto. Mais: se for preciso, meto-vos, cada um, em cantos opostos do mundo.
Espera lá! Vocês já estão em cantos opostos do mundo e, mesmo assim, não param de se azucrinar e de azucrinar a vizinhança.
Acho que vou ter de vos enfiar numa nave espacial e mandar-vos para a lua. Tiro de lá o homem com o molho de silvas e ponho-vos no lugar dele.
Não, para a lua, não. É mesmo ali ao lado e vocês desarrumavam aquilo tudo num instante. Para além de incomodar a vizinhança de dia, passavam a incomodá-la também de noite, na lua cheia, na lua nova, no quarto minguante e no crescente. Safa!
Acho que o foguetão terá de ir um bocado mais longe. Sei lá, para além dos limites do sistema solar. E aí, sim, podem fazer as vossas coboiadas à vontade, que os vizinhos já não se vêm cá queixar. E podem levar os vossos minúsculos penduricalhos (e umas lupas), para se divertirem a comparar quem o tem maior.
Com um pouco de sorte, numa bela tarde de Verão, a vizinhança ouvirá um traquezinho ligeiro vindo das profundezas do universo. Que é quando vocês, finalmente, rebentam um com o outro e esta história acaba de vez. Irra!
terça-feira, 17 de outubro de 2017
Ordenamento
A julgar pelo que se ouve por aí, para além do tal ordenamento florestal, o país precisa também de algum «ordenamento mental».
Chiu! (2)
- Olha lá, também vais à manifestação?
- Chiu!
- Já me calei.
Chiu!
Pensou ir à «manifestação silenciosa»,
mas quando andava com gases
era pior que uma buzina de camião.
Censura
A saCristas conjugando argumentos
para a moção de censura:
- Eu calipto, tu caliptas, ele calipta...
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
Demissão
- Demitam a ministra! - berrava o bode "espiatório" -. Aplaquemos os deuses com um sacrifício político. O resto, é deixar arder...
sábado, 14 de outubro de 2017
Sexta 13
Ontem foi sexta 13 e não dei por nenhuma bruxa a circular de vassoura. Já de carro...
Pedro e o... Diabo
Pedro profetizava a vinda do Demo, mas a este não lhe apetecia vir.
Farto de ser invocado em vão, o Diabo carregou com Pedro.
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
Pão pão
- Quero um pão, se faz favor.
- Quer um destes? Ou um destes? Ou destes... Temos 37 variedades.
- Não, só quero um pão.
Ó Nesco!
- Alô? É só pa dezer que me derrisquem dessa coisa da ónesco, ó lá uquié. Sisso num presta pós camones, tamém num quero. Óbrigadinho.
terça-feira, 10 de outubro de 2017
Terrorismo intestinal
Comprou repolho, feijão, cebolas e ovos.
Preparava-se para um atentado com gás letal
depois do jantar.
Pesadelo
Eu
ia sozinho pela estrada, a ver o estrago provocado por aquele fenómeno estranho. Tudo começara com um estrépito no céu estrelado. O dano era estremo.
Um turbilhão estrídulo deixara o
mato estrinçado, as aves estripadas, as árvores estroncadas, os bichos estropiados. Que fora aquilo?
Até
que o vi. Um grifo, rindo cavernosamente como riem todas as bestas mitológicas.
Apavorado,
gritei:
-
Vai-te! És um estronço sem estrutura, um verdadeiro estrupício cheirando a estrume.
E a seguir acordei.
Cornada
Relatava a tourada para a rádio quando foi colhido
por uma vaca tresmalhada.
- Coitado, até era um «cornista» simpático...
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
Nativo digital
Mandou tatuar todo o corpo com zeros e uns.
Não percebia peva de computadores, mas agora
sentia-se um verdadeiro «nativo digital».
A bebida
Era a primeira vez que bebia aquilo.
Pouco depois, declarava:
- Acho que não me absinto bem!
Estudos «científicos»
De acordo com um estudo do famoso cientista I. N. Sone,
«quando não se consegue dormir, fica-se com sono».
(Já antes o seu colega «F. A. Meentaw» tinha concluído noutro estudo que
«quando não se come, fica-se com fome».)
domingo, 8 de outubro de 2017
«Dezentendimento»
- Ontem há noite adurei e tu gostas-te? - teclou ele.
- Sim, gosto-me. Adeus! - concluiu ela.
quinta-feira, 5 de outubro de 2017
Efeméride
Também ele celebrou o Dia do Animal.
Não tinha cão nem gato, mas tinha piolhos.
sábado, 30 de setembro de 2017
Queixa do doente intermitente
Ai doutor, que terei eu,
Que me sinto intermitente:
Ora acordo com vigor
Ora me ponho dormente;
Ora me assola a febre
Ora gelo de repente;
Ora me dá o fastio
Ora como avidamente;
Ora me invade a tristeza
Ora pulo de contente;
Ora perco a paciência
Ora fico benevolente;
Ora me interesso por tudo
Ora tudo me é indiferente.
Diga-me lá, por favor,
Sendo médico experiente,
Isto é moléstia incurável
Ou acontece a toda a gente?
Reflexão
Olhou para o espelho
na véspera das eleições.
Viu que estava demasiado lixado
para outras reflexões.
para outras reflexões.
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
O 'boto' do galo
«No dia 1, bou botar! E tu?»
disse a galinha ao galo de Barcelos.
«Eu, só se for um de loiça», gargalhou ele.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
Ideias de...
Era um tipo sempre cheeeeio de ideias.
Mas depois ia à casa de banho
e aquilo passava-lhe.
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Percevejos
Passou a noite em Lisboa.
Revistou a cama, à cata de percevejos.
Aliviado, concluiu:
- Ufa! Não percevi nenhum!
domingo, 24 de setembro de 2017
Virilidade
As autárquicas estão a ficar muito «viris».
Uns oferecem chouriços, outros... tomates.
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