terça-feira, 31 de março de 2020

A falta de paciência do jogo das paciências (12)


Desta vez, o senhor Semedo já tinha tudo pronto quando o Jóquer assomou ao espelho.
- Viva! - disse este. - Pelo teu ar ansioso, concluo que já não consegues passar sem as histórias das minhas amigas cartas de jogar.
- É bem verdade - respondeu o senhor Semedo. - Andei todo o dia a desejar que chegasse este momento.
- Muito bem, vamos então a isso! Vai lá buscar as cartas - incitou-o o Jóquer.
Como já era costume, as cartas foram dispostas sobre a mesa e o senhor Semedo virou uma. Era um Ás de Paus.
Depois de uma curta apresentação, a carta de jogar anunciou que iria contar uma história de fantasmas:

Ia um homem de viagem por um caminho desconhecido através de uma serrania quando começou a anoitecer e ele sem lograr pousada onde se abrigar. Estava já resignado a acomodar-se debaixo de uns penedos quando viu, ao longe, uma luz a brilhar. Logo se alegrou, voltando a arrumar tudo nos alforges e, a seguir, tocou a montada em direcção ao ponto luminoso.
Ao aproximar-se, verificou que a luz provinha de um palacete rural meio arruinado, rodeado por altos muros, encimados por grades ponteagudas. Avançou em direcção à entrada principal da velha quinta e chegou a uma enorme portada de ferro, que se encontrava semi-aberta. Desceu do cavalo e empurrou um dos portões, de modo a poder passar com o animal pela arreata. Estava decidido a pedir que o deixassem passar ali a noite, nem que fosse na cavalariça, com a sua montada. Caminhou por uma alameda de terra batida, ladeada por antiquíssimos plátanos, até chegar à porta principal da mansão. Puxou a sineta, para se fazer anunciar e esperou que alguém viesse perguntar quem era. No entanto, ninguém apareceu, mas a porta escancarou-se, com um rangido.
O homem aproximou-se da entrada e chamou:
- Ó da casa!
E uma voz amável respondeu lá de dentro:
- Faça o favor de entrar. Mas, primeiro, instale o cavalo na cavalariça e depois venha cear.
O homem assim fez. De candeia na mão, conduziu o cavalo à cavalariça, desaparelhou-o e tratou dele. Tirou do alforge o que precisava e entrou no casarão. Seguindo as luzes, dirigiu-se a um salão onde encontrou uma mesa posta com uma refeição digna de reis. A tal voz disse-lhe que se sentasse e que se pusesse à vontade, rematando:
- Vá comendo, tanto quanto tiver na vontade, que já aí vou ter.
O viajante, como estava faminto, não se fez rogado, comeu e bebeu até se saciar. Quando terminou, a voz pediu-lhe:
- Agora, por favor, conte-me o que anda por aqui a fazer.
O homem começou por explicar de onde vinha e para onde ia e como tinha aportado ali. Conversa puxa conversa, acabou por contar a sua vida toda ao interlocutor, sem que este se fizesse aparecido. Algumas horas depois, a voz agradeceu:
- Obrigado por esta conversa. Há muito tempo que não dialogava assim com ninguém. Mas já é tarde e o senhor, com certeza, deve estar cansado da jornada. Suba ao primeiro andar e siga a luz até ao quarto onde irá pernoitar. A sua cama já está feita.
O homem agradeceu e subiu por uma larga escadaria. Ao fundo de um corredor, a luz de um candelabro indicava o seu quarto. Depois de se deitar, pôs-se a pensar demoradamente. Achou que tudo o que lhe estava a acontecer era um bocado estranho, mas deu graças pela hospitalidade do dono da casa e adormeceu profundamente.
Na manhã seguinte, bem cedo, o viajante levantou-se, lavou-se, vestiu-se e desceu até ao salão, que encontrou vazio. Em cima da mesa onde tinha ceado, havia apenas poeira e teias de aranha. Deu uma volta pelo palacete, à procura de alguém, e não encontrou vivalma. Constatou que a construção era ainda mais velha e abandonada do que lhe tinha parecido na noite anterior. Incomodado, foi então até à cavalariça, aparelhou o cavalo e seguiu viagem.
Umas léguas depois, chegou a uma aldeia, onde se dirigiu a uma taberna e pediu de beber. Em conversa com o taberneiro, contou o que lhe tinha acontecido nessa noite. O taberneiro teve um calafrio e benzeu-se, dizendo:
- Ó homem, onde você se foi meter. Aquela casa está assombrada. Contava o meu avô que, há muitos anos, o dono, que era muito rico, perdeu a mulher e o filho num acidente e, com o desgosto, pôs termo à vida, ali mesmo. Desde então, está abandonada e ninguém se atreve a passar por perto. Dizem que quem ousar entrar corre o risco de nunca mais voltar.
O viajante riu-se nervosamente e respondeu:
- Olhe, eu entrei, passei lá a noite e aqui estou. Nada me mal me aconteceu.
- Livrou-se boa, lhe digo eu - replicou o taberneiro. - Eu é que nunca me arriscaria a entrar lá.
O homem despediu-se e continuou a sua jornada, até que chegou a casa. Antes de entrar, acomodou o cavalo no estábulo e pegou no alforge, ouvindo nele um tilintar desconhecido. Abriu uma das bolsas e encontrou um papel envolvendo qualquer coisa. Desdobrou-o e viu que tinha duas moedas de ouro e umas frases escritas, que diziam: «Obrigado pelo excelente serão que me proporcionou. Há mais de cem anos que ninguém se atrevia a mitigar a minha solidão. Essas moedas são uma pequena paga pelo serviço que me prestou».
Depois do viajante ler estas palavras, o papel desfez-se em cinza e desvaneceu-se em pó.

O senhor Semedo teve um ligeiro arrepio e depois riu-se, dizendo:
- O que vale é que eu sou o senhor Sem Medo... Estás a ver, Jóquer, também sei fazer trocadilhos. Semedo, Sem Medo, topas?
O Jóquer soltou uma gargalhada e aplaudiu o dono da casa:
- Bravo! Bravo! A continuar assim, ainda me roubas o emprego...
Agradeceram ao Ás de Paus e despediram-se, depois de confirmar o encontro do dia seguinte.

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