terça-feira, 14 de agosto de 2018

O gigante e a sereia

Monte Cara. Baía do Mindelo, Cabo Verde.

Diz uma lenda apócrifa que o primeiro habitante da ilha cabo-verdiana de São Vicente terá sido um gigante, cujo nome já ninguém lembra. Depois de vencido numa batalha contra os deuses antigos, foi desterrado para aquela ilha desabitada no meio do Atlântico, como castigo pela sua insurreição.


O gigante era tão grande que, mesmo deitado, as nuvens baixas lhe roçavam a face. Após alguns passeios exploratórios por montes e vales, penhascos e baías, a ilha rapidamente lhe pareceu diminuta.

Quando a névoa o permitia, subia ao monte mais alto e espraiava o seu olhar pelas outras ilhas à volta, em busca de eventuais companheiros. Por vezes, lançava um chamamento, mas nunca obteve resposta. Cedo concluiu que estava condenado a viver sozinho até ao fim dos seus dias naquela ilha acanhada.

sábado, 28 de julho de 2018

Eclipse



Estavam ambos dentro do carro, no alto do monte, à espera do eclipse da lua.
Apenas o ruído abafado da discussão perturbava o silêncio:
- É de queijo.
- Não. É de chourição.
- Já disse: é de queijo!
- Estás enganada. É de chourição.
- Queijo!
- Chourição!
- Queres apostar?
- Por mim, está bem.
- A quê?
- Quem acertar fica com ela.
- Aceito.
Afinal, era de presunto.
Dividiram a sandes a meio e saborearam-na calmamente.
Quanto à lua, nada feito. Havia demasiadas nuvens.

domingo, 11 de março de 2018

Namoro frustrado



O rapaz apressou o burro com os calcanhares. A tarde ia avançada. Não tarda, seria noite. De repente, lembrou-se. As flores tinham ficado em cima da mesa da sala. E agora, com que cara se apresentaria à rapariga?
Viu uma roseira no quintal de uns vizinhos. Desmontou e tentou colher uma rosa. No lusco-fusco, sem uma faca, era difícil. Acendeu o isqueiro. Ao ladrar dos cães, mal teve tempo de montar de novo e partir à desfilada.

Desafio 137 do blogue 77palavras.blogspot.pt.
Palavras obrigatórias: burro, rosa, isqueiro.

domingo, 4 de março de 2018

O namoro dos melros

Desenho a caneta de tinta permanente de Carlos Alberto Silva.

O casal de melros veio namorar para o meu quintal.
Enquanto ela, com o seu vestido pardo, saltita pelo chão, impaciente e desconfiada, ele empoleira-se num ramo da laranjeira, exibindo o seu negro e lustroso fraque.
Ela crocita, na sua voz fraca:
- Despachemo-nos. O ninho arrefece e a chuva não tarda.
E ele responde, assobiando uma bela melodia:

Assim sejas tu, minha amada,
fértil como a chuva.
Que no teu ventre germine
a breve semente da eternidade.

(História em 77 palavras, sem tema. Homenagem aos 7 anos do blogue 77palavras.blogspot.pt e à Margarida Fonseca Santos.)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

A ladra do carrapito


Veio tudo à janela ao soar do apito.
Dois polícias perseguiam a ladra do carrapito.
Desta vez, não escapava.
Tinha sido apanhada em flagrante delito.
Enquanto o agente a algemava
de modo mui expedito
debatia-se e gritava:
- Larga-me, maldito!
Presente ao juiz, foi interrogada:
- Foi então a senhora que roubou o teodolito?
Mas ela ficou calada,
de olhos postos no chão.
Reunidas as provas, fez-se ouvir o veredito:
- Durante a próxima temporada,
medirá os azimutes da prisão.

(Desafio 135 do blogue «Histórias em 77 palavras»)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Raspanete galáctico


Calados e quietos! Meninos, ganhem juízo! Tu, Quim, não provoques o Donald! E tu, Donald, não te metas com o Quim. Deixem-se de parvoíces, que estão a incomodar a vizinhança.
Se não ganham juízo, ponho um a cada canto. Mais: se for preciso, meto-vos, cada um, em cantos opostos do mundo.
Espera lá! Vocês já estão em cantos opostos do mundo e, mesmo assim, não param de se azucrinar e de azucrinar a vizinhança.
Acho que vou ter de vos enfiar numa nave espacial e mandar-vos para a lua. Tiro de lá o homem com o molho de silvas e ponho-vos no lugar dele.
Não, para a lua, não. É mesmo ali ao lado e vocês desarrumavam aquilo tudo num instante. Para além de incomodar a vizinhança de dia, passavam a incomodá-la também de noite, na lua cheia, na lua nova, no quarto minguante e no crescente. Safa!
Acho que o foguetão terá de ir um bocado mais longe. Sei lá, para além dos limites do sistema solar. E aí, sim, podem fazer as vossas coboiadas à vontade, que os vizinhos já não se vêm cá queixar. E podem levar os vossos minúsculos penduricalhos (e umas lupas), para se divertirem a comparar quem o tem maior.
Com um pouco de sorte, numa bela tarde de Verão, a vizinhança ouvirá um traquezinho ligeiro vindo das profundezas do universo. Que é quando vocês, finalmente, rebentam um com o outro e esta história acaba de vez. Irra!