domingo, 11 de março de 2018

Namoro frustrado



O rapaz apressou o burro com os calcanhares. A tarde ia avançada. Não tarda, seria noite. De repente, lembrou-se. As flores tinham ficado em cima da mesa da sala. E agora, com que cara se apresentaria à rapariga?
Viu uma roseira no quintal de uns vizinhos. Desmontou e tentou colher uma rosa. No lusco-fusco, sem uma faca, era difícil. Acendeu o isqueiro. Ao ladrar dos cães, mal teve tempo de montar de novo e partir à desfilada.

Desafio 137 do blogue 77palavras.blogspot.pt.
Palavras obrigatórias: burro, rosa, isqueiro.

domingo, 4 de março de 2018

O namoro dos melros

Desenho a caneta de tinta permanente de Carlos Alberto Silva.

O casal de melros veio namorar para o meu quintal.
Enquanto ela, com o seu vestido pardo, saltita pelo chão, impaciente e desconfiada, ele empoleira-se num ramo da laranjeira, exibindo o seu negro e lustroso fraque.
Ela crocita, na sua voz fraca:
- Despachemo-nos. O ninho arrefece e a chuva não tarda.
E ele responde, assobiando uma bela melodia:

Assim sejas tu, minha amada,
fértil como a chuva.
Que no teu ventre germine
a breve semente da eternidade.

(História em 77 palavras, sem tema. Homenagem aos 7 anos do blogue 77palavras.blogspot.pt e à Margarida Fonseca Santos.)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

A ladra do carrapito


Veio tudo à janela ao soar do apito.
Dois polícias perseguiam a ladra do carrapito.
Desta vez, não escapava.
Tinha sido apanhada em flagrante delito.
Enquanto o agente a algemava
de modo mui expedito
debatia-se e gritava:
- Larga-me, maldito!
Presente ao juiz, foi interrogada:
- Foi então a senhora que roubou o teodolito?
Mas ela ficou calada,
de olhos postos no chão.
Reunidas as provas, fez-se ouvir o veredito:
- Durante a próxima temporada,
medirá os azimutes da prisão.

(Desafio 135 do blogue «Histórias em 77 palavras»)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Raspanete galáctico


Calados e quietos! Meninos, ganhem juízo! Tu, Quim, não provoques o Donald! E tu, Donald, não te metas com o Quim. Deixem-se de parvoíces, que estão a incomodar a vizinhança.
Se não ganham juízo, ponho um a cada canto. Mais: se for preciso, meto-vos, cada um, em cantos opostos do mundo.
Espera lá! Vocês já estão em cantos opostos do mundo e, mesmo assim, não param de se azucrinar e de azucrinar a vizinhança.
Acho que vou ter de vos enfiar numa nave espacial e mandar-vos para a lua. Tiro de lá o homem com o molho de silvas e ponho-vos no lugar dele.
Não, para a lua, não. É mesmo ali ao lado e vocês desarrumavam aquilo tudo num instante. Para além de incomodar a vizinhança de dia, passavam a incomodá-la também de noite, na lua cheia, na lua nova, no quarto minguante e no crescente. Safa!
Acho que o foguetão terá de ir um bocado mais longe. Sei lá, para além dos limites do sistema solar. E aí, sim, podem fazer as vossas coboiadas à vontade, que os vizinhos já não se vêm cá queixar. E podem levar os vossos minúsculos penduricalhos (e umas lupas), para se divertirem a comparar quem o tem maior.
Com um pouco de sorte, numa bela tarde de Verão, a vizinhança ouvirá um traquezinho ligeiro vindo das profundezas do universo. Que é quando vocês, finalmente, rebentam um com o outro e esta história acaba de vez. Irra!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ordenamento

A julgar pelo que se ouve por aí, para além do tal ordenamento florestal, o país precisa também de algum «ordenamento mental».

Chiu! (2)

- Olha lá, também vais à manifestação?
- Chiu!
- Já me calei.

Chiu!

Pensou ir à «manifestação silenciosa»,
mas quando andava com gases
era pior que uma buzina de camião.

Censura

A saCristas conjugando argumentos
para a moção de censura:
- Eu calipto, tu caliptas, ele calipta...

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Demissão

- Demitam a ministra! - berrava o bode "espiatório" -. Aplaquemos os deuses com um sacrifício político. O resto, é deixar arder...

sábado, 14 de outubro de 2017

Sexta 13

Ontem foi sexta 13 e não dei por nenhuma bruxa a circular de vassoura. Já de carro...

Pedro e o... Diabo

Pedro profetizava a vinda do Demo, mas a este não lhe apetecia vir.
Farto de ser invocado em vão, o Diabo carregou com Pedro.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Pão pão

- Quero um pão, se faz favor.
- Quer um destes? Ou um destes? Ou destes... Temos 37 variedades.
- Não, só quero um pão.

Ó Nesco!

- Alô? É só pa dezer que me derrisquem dessa coisa da ónesco, ó lá uquié. Sisso num presta pós camones, tamém num quero. Óbrigadinho.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Terrorismo intestinal

Comprou repolho, feijão, cebolas e ovos.
Preparava-se para um atentado com gás letal
depois do jantar.

Pesadelo


Eu ia sozinho pela estrada, a ver o estrago provocado por aquele fenómeno estranho. Tudo começara com um estrépito no céu estrelado. O dano era estremo. Um turbilhão estrídulo deixara o mato estrinçado, as aves estripadas, as árvores estroncadas, os bichos estropiados. Que fora aquilo?
Até que o vi. Um grifo, rindo cavernosamente como riem todas as bestas mitológicas.
Apavorado, gritei:
- Vai-te! És um estronço sem estrutura, um verdadeiro estrupício cheirando a estrume.
E a seguir acordei.

Cornada

Relatava a tourada para a rádio quando foi colhido
por uma vaca tresmalhada.
- Coitado, até era um «cornista» simpático...

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Nativo digital

Mandou tatuar todo o corpo com zeros e uns.
Não percebia peva de computadores, mas agora
sentia-se um verdadeiro «nativo digital».

A bebida

Era a primeira vez que bebia aquilo.
Pouco depois, declarava:
- Acho que não me absinto bem!

Estudos «científicos»

De acordo com um estudo do famoso cientista I. N. Sone,
«quando não se consegue dormir, fica-se com sono».

(Já antes o seu colega «F. A. Meentaw» tinha concluído noutro estudo que
«quando não se come, fica-se com fome».)

domingo, 8 de outubro de 2017

«Dezentendimento»

- Ontem há noite adurei e tu gostas-te? - teclou ele.
- Sim, gosto-me. Adeus! - concluiu ela.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Efeméride

Também ele celebrou o Dia do Animal.
Não tinha cão nem gato, mas tinha piolhos.

sábado, 30 de setembro de 2017

Queixa do doente intermitente


Ai doutor, que terei eu,
Que me sinto intermitente:
Ora acordo com vigor
Ora me ponho dormente;
Ora me assola a febre
Ora gelo de repente;
Ora me dá o fastio
Ora como avidamente;
Ora me invade a tristeza
Ora pulo de contente;
Ora perco a paciência
Ora fico benevolente;
Ora me interesso por tudo
Ora tudo me é indiferente.
Diga-me lá, por favor,
Sendo médico experiente,
Isto é moléstia incurável
Ou acontece a toda a gente?

Reflexão

Olhou para o espelho
na véspera das eleições.
Viu que estava demasiado lixado
para outras reflexões.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O 'boto' do galo

«No dia 1, bou botar! E tu?»
disse a galinha ao galo de Barcelos.
«Eu, só se for um de loiça», gargalhou ele.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Ideias de...

Era um tipo sempre cheeeeio de ideias.
Mas depois ia à casa de banho
e aquilo passava-lhe.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Percevejos

Passou a noite em Lisboa.
Revistou a cama, à cata de percevejos.
Aliviado, concluiu:
- Ufa! Não percevi nenhum!

domingo, 24 de setembro de 2017

Virilidade

As autárquicas estão a ficar muito «viris».
Uns oferecem chouriços, outros... tomates.

Contraceptivo

Será que alguns candidatos
estão a oferecer preservativos
para que os seus eleitores
não emprenhem pelos ouvidos?

sábado, 23 de setembro de 2017

O candidato

O Chóriço quer candidatar-se à Junta lá da terra pelo partido das setinhas.
- Ó pá, não pode ser... - recusou o presidente da concelhia.
- Nã pode pruquê?
- Com um nome desses?
- Eu ache qu'o nome é uma vantage. Em vez dum otoclante, ofrecia um chóriço a cada pessoa. Olhó outro... aquele de Braga.
- Não. Nem assim.
- Ai não? Atão e se for assado?

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Em campanha

Ilustração de Kaine Lacerda
As comitivas das duas listas concorrentes à associação de estudantes do colégio feminino cruzam-se num corredor. Um encontrão incendeia os ânimos. Começam as provocações. Esgotando-se os argumentos, vêm os insultos, que sobem de tom e baixam de nível.
- Sua esta, sua aquela!
- Isso és tu e a tua mãezinha!
Até que surge o maior ultraje, a ofensa suprema:
- Sabes o que és, sabes?
- Não, mas tu vais dizer-mo, não é?
- Vou. És uma grandessíssima filha da… po-lí-ti-ca!