Contos curtos de Carlos Alberto Silva, resultado das colaborações na página do Facebook «Escrita de microficção», no blogue «77 palavras» e outros. [Todos os textos são redigidos em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Elogio da Greve Mansa
A greve é um direito constitucional
Desde que não seja no meu quintal
E não belisque a conveniência geral
Não afecte a produção das farinhas
Nem ponha em causa a criação de galinhas
Nem traumatize as pobres criancinhas
O melhor seria ouvir os poderes instalados
E fazê-la no dia e hora mais adequados
Para não haver prejudicados
Talvez ao domingo depois do sermão
No feriado da Imaculada Conceição
Ou dia de São Nunca (que é santo pagão)
Nos restantes dias a greve já cansa
Agitando a louca bandeira da esperança
Que a melhor das greves é a greve mansa
A culpa
a culpa
da queda do investimento nacional
é da chuva
a culpa
do descalabro da dívida pública
é do nevoeiro
a culpa
da derrapagem orçamental
é do granizo
a culpa
das políticas de austeridade
é do vento suão
a culpa
do aumento dos impostos
é das marés vivas
a culpa
dos cortes nas pensões
é da trovoada
…
e a culpa
de termos de aturar estes anormais
que nos andam a lixar a vida
é das profissionais do sexo
já que os deram à luz!
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
O massacre do OE13
- Bzzz… Ai ‘miga, o que é aquilo que ali vem?
- Foge, ‘miga! Ele quer dar cabo de nós.
A mais gorda das melgas, no entanto, não escapa ao grosso maço
de papel. A outra, escanzelada, mas ágil, lamenta-se:
- Coitadinha… Bzzz… Eu bem lhe disse que sugar um vampiro
era muito arriscado...
E foge dali, aproveitando a confusão de folhas pelo ar. Na última
que chega ao chão, pode ler-se: «Orçamento de Estado para 2013».
Resposta ao desafio nº 24 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.
Resposta ao desafio nº 24 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Artesanato trágico
Era um leitão de
cortiça com uma rolha por nariz. Estava
na montra, entre um almofariz de pedra
e um despertador em forma de bola de ténis. Decidi oferecê-lo ao glutão
do Alfredo. Entrámos na loja, mas uma vespa
enfurecida atirou-se a mim. Tive de me defender com um rolo de papel que estava ali à mão. Um golpe mal
calculado e o bácoro desfez-se em pedaços. Agora... vou ter de lhe oferecer um a sério.
Assado.
Resposta ao desafio nº 23 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.
domingo, 16 de setembro de 2012
A marcha do futuro
Primeiro, pingaram algumas gotas dispersas, qual chuvisco de
Verão. Gota a gota, o caudal engrossou, até se transformar numa torrente imparável.
E a torrente fez-se rio, um rio de gente corajosa, ocupando as cidades.
Vieram novos e velhos, trazendo a força dos sonhos
atraiçoados, uma réstia de esperança, um grito na garganta. Por isso, armaram-se
apenas com palavras, algumas muito duras… porém verdadeiras. Encheram praças e
avenidas, quebrando a letargia de um país adiado. Exigindo um futuro!
Resposta ao desafio nº 18 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.
sábado, 1 de setembro de 2012
Maria não vai com as outras
Maria não vai com as outras, não.
Ela só vai onde a leva o coração.
Se a querem por companhia,
Que a esperem …ou que se vão.
Maria não pode ir agora,
Pois mergulhou nas ondas da paixão.
O anel de Lena
Lena é uma jovem alegre e desinibida que adora roupas coloridas.
O seu riso contagiante faz com que todos a estimem. Sabem que Lena perdeu o pai
num acidente trágico e que, por isso, a mãe sofre de uma constante depressão. E
que é a coragem, a alegria e o amor da filha que a mantêm viva…
No entanto, em segredo, Lena afaga o pequeno anel que o pai
lhe deu e chora amargamente a sua ausência.
Resposta ao desafio nº 17 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.
Blue moon
Desafiou-a a ir ter com ele ao alto do monte. À luz da segunda lua cheia de Agosto, renovariam os votos que tinham feito há anos atrás. Esperou toda a noite. A lua apareceu, Maria não.
[Participação no desafio 23 da página «Escrita de Microficção». Tema: «À espera de Maria».]
O irresistível aroma da tarte de amora
Da janela entreaberta, desprendia-se um aroma irresistível. Pedro e Afonso largaram a bola e
aproximaram-se, sorrateiros, do quintal da vizinha. Mal os pressentiu, o anafado
gato amarelo bufou e esgueirou-se para cima de uma árvore.
Parados debaixo do parapeito, puseram-se à escuta, até se
certificarem de que não havia ninguém na casa. Pedro ajoelhou-se, Afonso subiu
e lançou a mão à bela tarte de amora.
De repente, sentiu que alguém o puxava para dentro. Tinha sido apanhado!
Resposta ao desafio nº 17 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
O Castelo das Palavras
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| Castelo de Newschwanstein, na Baviera, Alemanha. |
No Castelo das Palavras, havia salas onde se guardavam todos
os tipos de palavras. A Sala das Palavras Macias tinha palavras como «peluche», «espuma» e
«almofada», mas também «carícia», «beijo», «mãe» e outras do género. A Sala das
Palavras Ancestrais tinha palavras como «mundo», «fonte» e «nascimento». A Sala
das Palavras Magoadas tinha palavras como «ausência», «lágrima»,
«fome» ou «solidão». Mas havia também a Sala das Palavras Terríveis, onde se
guardava a mais terrível de todas: «morte».
Resposta ao desafio nº 16 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.
domingo, 19 de agosto de 2012
A saga do tio Arlindo - Aventura no café Paris
1. O tio Arlindo andava intrigado com a faina do Lopes. Ora entrava carregado de caixas, ora saía cheio de sacos. Pôs-se nas suas tamanquinhas e foi ao café Paris, investigar a coisa.
2. No café
Paris, ele bem perguntou pelo Lopes. Que não, que ainda não tinha
entrado lá naquele dia. Pasmado, o tio Arlindo coçava a cabeça. Estava a
começar mal, aquela investigação.
3. Ao sair do café Paris, o tio
Arlindo viu o vulto do Lopes abandonando a mercearia do Brites e
entrando numa carrinha da Panrico. «Que estranho!», pensou. O mistério
adensava-se.
4. No outro dia, o tio Arlindo chegou cedo ao café
Paris. Lá estava a carrinha da Panrico, mas… o tal vulto não era o
Lopes. O tio Arlindo percebeu então que tinha de passar a usar óculos.
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tio Arlindo
Homem de palha
Às vezes, no meio do
campo, um homem de palha botava discurso às aves esquivas. Exaltava a solidez
da sua morada permanente, com ampla vista sobre o mundo circundante. O pé bem
fixo na terra tornava-o forte, temido, imune ao sobressalto das estações. Ali,
onde estava, vigiava o próprio ciclo da vida e da morte. Arrogava-se, por isso,
Senhor do Tempo.
Mas as aves não o ouviam. Bastava-lhes abrir as asas e o
mundo era todo delas.
Resposta ao desafio nº 15 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos. Frase inicial retirada do «Romance da Raposa», de Aquilino Ribeiro.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
O cão do faroleiro
Pertenciam ambos a mundos diferentes. E havia a diferença de
idades: 14 e 41.
Conheceram-se na ilha Berlenga.
Caminhava ele na enseada deserta e ela provocou-o com uma
chapada de água.
Um simples olhar deflagrou em amor súbito. Mas não podiam…
- Sou muito velho – disse ele –. Já tenho 14 anos.
- Eu ainda sou jovem – respondeu ela –. Tenho 41.
Ele ladrou e correu escarpa acima.
Ela bateu a grande barbatana e partiu mar adentro.
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sábado, 21 de julho de 2012
Namoro efémero
Uma bola de Berlim apaixonou-se por um pastel de nata.
O namoro acabou na boca de uma banhista.
[Participação no desafio 17 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Desencontro amoroso à beira-mar».]
Receita da bola de Berlim: http://fofinhos-quentinhos.blogspot.pt/2010/06/bola-de-berlim.html
Receita do pastel de nata: http://asminhasreceitas.com/receita/pastel-nata
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Maresia
Tímida, fugiu a maresia, face às investidas do sol de Verão.
[Participação no desafio 17 da página «Escrita
de Microficção». Tema: «Desencontro amoroso à beira-mar».]
A saga do tio Arlindo (7)
O tio Arlindo detestava praia… até ver a viúva em monoquini.
[Participação no desafio 17 da página «Escrita
de Microficção». Tema: «Desencontro amoroso à beira-mar».]
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Superstição!
Como não era supersticioso, aproveitou a promoção da Pensão
Gato Preto. Só que as coisas não correram bem. Depois do nevoeiro lhe ter
estragado o dia de praia, foi para o quarto. A cama rangia como cem demónios
arrenegados. A luz do candeeiro piscava de forma sobrenatural. Inoperacional, a
TV exibia apenas uma estranha «chuva miudinha». Resignou-se. Desligou tudo,
deitou-se no tapete e dormiu como um anjo.
Que mais poderia esperar de uma sexta-feira 13? Era barata...!
[Resposta ao desafio nº 13 do blogue 77palavras.blogspot.pt, da escritora Margarida Fonseca Santos.]
quarta-feira, 18 de julho de 2012
A partilha
Um cão e um gato bifaram uma bela posta de lombo assado.
«Agora, vamos manjá-la juntos», rosnou o cão. «Está bem,
anda», bufou o gato, arrebatando o pitéu para cima de um telhado.
[Participação no desafio 16 da página «Escrita
de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».]
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A saga do tio Arlindo (6)
Querendo vingar-se da traição do outro, o tio Arlindo ligou
para a viúva. Inventou: ele e o Lopes tinham sido amantes; soubera agora que
tinha sida.
Só então deu pela asneira…
[Participação no desafio 16 da página «Escrita
de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».]
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domingo, 15 de julho de 2012
O lobo motard
Embrenhando-se cada vez mais na floresta, a rapariga do capuz vermelho gritava a plenos pulmões:
- Lobo, loooobo, onde estás? Não adianta esconderes-te. Eu
encontro-te sempre…
Dissimulado atrás de um arbusto, o lobo fazia o que podia
para se ocultar. Não lhe apetecia nada aturá-la. Mas ela, que já lhe conhecia as manhas,
descobriu-o num instante.
- Eu não disse que te encontrava? Agora traz lá a mota
e vamos dar uma volta até à Caparica…
A saga do tio Arlindo (5)
Ao tio Arlindo doía-lhe a traição do Lopes. Caíra na asneira
de o apresentar à viúva a quem cortejava e o outro passou-lhe a perna. Acabara
de os ver, a arrulhar, na tasca do espanhol.
[Participação no desafio 16 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».]
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tio Arlindo
O pedido
Teve de emigrar, mas não pôde levar a mulher. Foi ter com o
seu melhor amigo e deixou-a sob a sua protecção, pedindo-lhe que tratasse dela
como se fosse sua.
O amigo levou o pedido à letra.
[Participação no desafio 16 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».]
Em tempo de guerra...
Regressado das manobras de campo, o capitão apanhou a mulher
na cama com o seu melhor amigo. Pegou numa chibata e desancou-os. Furiosa, ela
fez a ronda completa ao pelotão.
[Participação no desafio 16 da página «Escrita
de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».]
sábado, 14 de julho de 2012
Decepção
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| Jean Veber - Les Lutteuses (pormenor) |
A amizade entre a Gata Borralheira e a Bela Adormecida acabou no dia em que ambas descobriram que o príncipe era o mesmo.
[Participação no desafio 16 da página «Escrita
de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».]
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contos de fadas inversos,
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O camelo o burro e a água
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| Ilustração de Merli (Brasil) para o livro infantil com o mesmo título. |
Especialistas em meter água, foram corridos do zoo à mangueirada. O camelo foi para Massamá, borrifar o jardim e o burro foi para Tomar, regar a horta.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Discurso eleitoral
- Votem em mim - disse o lobo -. Chegámos a uma nova era. Lobos
e ovelhas são agora amigos inseparáveis.
Embora desconfiadas, as ovelhas deixaram-se ir na conversa. Azar
o delas.
[Participação no desafio 16 da página «Escrita
de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».]
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fábulas imorais
quarta-feira, 11 de julho de 2012
A dança das cadeiras
Veio o primeiro porco e sentou-se. Organizou o banquete a seu jeito, comeu quanto quis e aos restantes bichos deixou umas migalhas. O segundo, o terceiro e o quarto fizeram igual, bem como os que se lhe seguiram. Quando já não havia nem migalhas para distribuir, acusaram os outros bichos de viver acima das suas (deles) possibilidades...
terça-feira, 10 de julho de 2012
Arrependido
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A Youth on His Knees in Front of a Lady - Konstantin Somov |
Ajoelhado a seus pés, jurou que estava arrependido de se ter arrependido
de namorar com ela. Lembrou que, quando a conhecera, achara que nunca ficaria arrependido de assumir esse compromisso.
Afinal, não sabia porquê, tinha-se arrependido,
e quanto a isso, não havia nada a fazer. Agora que estava arrependido de se ter arrependido,
queria voltar para ela. Isto, se ela o perdoasse por se ter arrependido.
Confusa e perturbada com tais artifícios argumentativos, ela
mandou-o à mãe.
[Resposta ao desafio nº 12 do blogue 77palavras.blogspot.pt, da escritora Margarida Fonseca Santos.]
O castigo da Bela adormecida
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| A bela adormecida - Viktor Vasnetsov |
- Acorda, Bela, que o sol já vai alto e tens o linho para
fiar. Anda, não sejas preguiçosa.
Era sempre a mesma chatice todas as manhãs. Mas haviam de
pagá-las, pensava a moça, sonolenta.
Um dia, apanhou umas certas ervas e misturou-as
no caldo da ceia. Caíram todos num sono profundo. Agora é que dormiria até se fartar, pensava Bela.
Na manhã seguinte, o carteiro, dando com toda a gente a
dormir, foi-se à rapariga e roubou-lhe «os frutos do amor».
Nove meses depois, são os dois filhos gémeos que a acordam,
de quatro em quatro horas.
Assédio na pastelaria
![]() |
| Hänsel und Gretel - Darstellung von Alexander Zick |
João e Maria eram dois irmãos que trabalhavam na pastelaria
«Floresta», propriedade de uma bruxa lasciva chamada Ambrósia. Como o desejo de
Ambrósia era «comer» o rapaz, fazia trabalhar a irmã de sol a sol, enquanto o
apaparicava com mimos. Mas ele... moita! Farta da situação, Maria foi fazer
queixa ao sindicato e receberam ambos uma bela indemnização. Falida e sem conseguir
«molhar a sopa», a velha rebentou de raiva. Pum!
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