segunda-feira, 9 de julho de 2012

Espelho meu



- Espelho meu, espelho meu, haverá no mundo alguma gaja mais gira e esperta e culta e dotada do que eu?
- Ora, deixa-te de palermices, Clemenciana. Sai de pé do espelho e vem arranjar as unhas dos pés à Dona Rosa, que está com pressa.

A evasão de Rapunzel

Rapunzel - Florence Harrison
Os cabelos de Rapunzel eram tão eficazes como uma escada de corda. E se serviam para subir, também serviam para descer. Por isso, farta de esperar por um príncipe que nunca mais aparecia, evadiu-se da torre e foi-se à vida. Arranjou emprego numa corporação de bombeiros e tornou-se especialista em salvamentos.

O futuro da Europa?


O rapto de Europa - mosaico romano
Epónima do velho continente, a deusa Europa indaga o futuro no seu espelho de prata. Aterrorizada, antevê a aniquilação do seu povo sob o jugo de uma herética chamada Troika.

[Participação no desafio 15 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Auto-retrato de um condenado à morte».]

A rã e o príncipe.


P. J. Lynch - The frog prince
Ouviu contar que uma garina tinha beijado um sapo e este se transformou em príncipe. Riu-se. Também já beijara uma rã. Alucinogénica. Sentira-se como um verdadeiro príncipe...

A tragédia da mosca



Perseguida pelo enfurecido empregado do café, a mosca decidiu pousar sobre o espelho do lavabo. Paf! Foi aí que deixou de zumbir para sempre.

[Participação no desafio 15 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Auto-retrato de um condenado à morte».]

A saga do tio Arlindo (4)


Pantalone - Personagem da Commedia italiana.
O tio Arlindo sentia-se como um condenado à morte. Agora que se habituara a ele, um postal convocava-o para uma consulta, a propósito do seu problema de lateralidade intermitente…

[Participação no desafio 15 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Auto-retrato de um condenado à morte».]


«A fuga de Wang Fo»



Antes de se cumprir a sentença do Imperador, Wang-Fô teria de terminar um quadro inacabado. Foi dentro dele que, com o seu discípulo Ling, se escapou de barco na linha do horizonte.

Resumo do conto do mesmo nome (ou com o título «A salvação de Wang-Fô») de Marguerite Yourcenar, em 150 caracteres. O original pode ser encontrado AQUI.

Naufrágio



Ainda bem que mandara à família, no dia anterior, aquele postal com uma foto sua. A visão da barbatana do tubarão a rondá-lo deu-lhe a certeza de que não escaparia vivo do naufrágio.

[Participação no desafio 15 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Auto-retrato de um condenado à morte».

Reflexo



Quem seria aquele velho que vira no reflexo do vidro, a caminho da sala de execução? Estivera tanto tempo à espera daquele acto final, que já nem se reconhecia a si próprio…

 [Participação no desafio 15 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Auto-retrato de um condenado à morte».]

domingo, 8 de julho de 2012

Fama



Atingido mortalmente por uma bala, no fogo cruzado entre a polícia e os assaltantes, ainda teve tempo de pegar no telemóvel e mandar uma foto da sua agonia para o «feicebuque».

[Participação no desafio 15 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Auto-retrato de um condenado à morte».]

Vida a crédito



Morto ou vivo, jamais lhe tirariam o gosto pelos fatos Armani e pelos carros de alta cilindrada. Olhou os cartões de crédito inúteis, ajeitou o cabelo e mergulhou no vazio.

[Participação no desafio 15 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Auto-retrato de um condenado à morte».

Bigode


 
Palavra de honra, disse, quem foi o engraçadinho que fez um bigode no meu quadro?

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».]

Abandono escolar



Sem honra, nem glória, desistiu da escola, farto de ir ao quadro.

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».]

«Decência»


Nu na rede - Óscar Pereira da Silva (truncado)
Pegou no pincel e honrou o quadro. Era um nu indecente. Agora, já não.

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».]

sábado, 7 de julho de 2012

Quatro em um


Quem será o personagem mistério?

1. Onze valores. Era quanto valia a honra daquele quadro.
 
2. Para o chefe, a falta de honra do seu quadro era «um não assunto».

3. Era um quadro turvo com uma honra ainda mais turva. Foi turbo-licenciado.

4. O rasto de um governante sem honra é um quadro devastador.

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».
Escritos a partir de um assunto da actualidade política nacional]

A saga do tio Arlindo (3)


Pantalone - Personagem da Commedia italiana.
O quadro de honra do tio Arlindo estava cheio de paradoxos: tinha axiomas esquerdinos e jactâncias dextras.

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».]

Risco



Oculto atrás do quadro, um envelope põe em risco a honra dele.

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».

Declaração de inocência


 
Ferido na sua honra, escreveu no quadro: não fui eu!

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».

Pose


Nu - Picasso
Ela estava disposta a perder a honra, depois ter posado para o quadro dele. Ele mandou-a vestir.

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de Honra»]

Reclusão



A mãe sempre lhe dissera que aquilo lá fora era uma selva. Por isso, nunca saiu de casa para ir à escola, brincar com amigos ou namorar. Quando a velha se finou, achou-se sozinho, com 65 anos e sem saber nada do mundo.

[Participação no desafio 13 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Prisão domiciliária».

A saga do tio Arlindo (2)


Pantalone - personagem da Commedia italiana.
Quase em prisão domiciliária vivia o tio Arlindo. Devido às suas crises de lateralidade, só se atrevia a sair de casa aos domingos. Nos dias «dextros» lia os jornais e nos «esquerdinos» coleccionava telenovelas.

[Participação no desafio 13 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Prisão domiciliária».]  

Trabalho a dobrar



- Jaime - disse o pai - estás promovido. Mas agora trabalhas a dobrar...
O rapaz largou a vassoura, pegou num molho de camisas e agradeceu a sua nova tarefa na lavandaria da família.

[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]  

A fera atraiçoada



Em público, era um cavalheiro, mas virava fera mal entrava em casa. A mulher, vítima das suas fúrias, ruminava planos de vingança. Um dia, aproveitando a passagem de um circo, fugiu com o domador de leões.

[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».

Aventuras intra-conjugais



Anos de casamento trouxeram a rotina e o tédio. Secretamente, começaram ambos a procurar parceiros de aventura nas redes sociais. Reencontraram-se num quarto de hotel, depois de se terem seduzido um ao outro sob identidades supostas.

[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».

A saga do tio Arlindo (1)


Pantalone - personagem da comédia italiana
Vida dupla tinha o tio Arlindo. Às segundas, quartas e sextas era dextro, às terças, quintas e sábados era esquerdino e aos domingos dava-nos com os pés.

[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».

O não-dilema do careca


Máscara de Amável Antão (Trás-os-Montes)
Ele já sabia a história do homem que tinha uma mulher nova e outra velha e como uma lhe arrancara os cabelos brancos e a outra os pretos. Encolheu os ombros: era careca.

[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».

As fotos da tia Emília


Pedro fecha a revista gasta e desbotada e esconde-a atrás do armário do WC.
No dia seguinte, voltará a babar-se sobre as fotos desnudas da tia Emília.
- Era podre de boa, a velha.

[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]

Provérbios à mãe


Mother and Child - Jean-Baptiste Greuze
Mais vale ir [a mãe] do que mandar [o filho].
As [mães] apressadas parem os filhos [e seguem].
[Enquanto a mãe não chega], a fome [do filho] é a melhor cozinheira.
A lei [da mãe] é dura, mas é para se cumprir [quase sempre].
«Albarda-se» o filho à vontade [da mãe]? Burro!
Ande o frio por onde andar, [a mãe há-de cá estar para nos agasalhar].
Antes quero [mãe] que me [en]leve, que [madrasta] que me derrube.
Ao menino e ao [tacho] põe [a mãe] a mão por baixo.
As [más] aparências [do filho] [des]iludem [a mãe].

[Participação no desafio 11 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Humor de mãe».

Segredo


Temptation (Mother and Child) by William-Adolphe Bouguereau
«Vou contar-te um segredo, mãe. Parei os relógios todos cá de casa e o tempo anda desorientado. Assim, ficarás sempre comigo.»Mas a mãe tinha dentro de si um tiquetaque inadiável...

[Participação no desafio 11 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Humor de mãe».]

Despedida

«Les amants», René Magritte, 1928
Resposta ao desafio nº 11 do blogue 77palavras.blogspot.pt, da escritora Margarida Fonseca Santos.
 
Ele: A tua boca é um poema ardente.
Ela: E os nossos beijos falam de ilhas secretas, ocultas no oceano dos olhos.
Ele: Então vem comigo. Os meus dedos afagarão eternamente a erva dos teus cabelos.
Ela: Não posso. Na água que deles escorre acumulam-se as lágrimas amargas que nunca chorei.
Ele: Se assim é, partamos, embalados pelos odores da maresia.
Ela: Sim, partamos, que a alvorada já nos pesa nas pálpebras.
Partiram, então, em direcções opostas.