domingo, 8 de julho de 2012

Fama



Atingido mortalmente por uma bala, no fogo cruzado entre a polícia e os assaltantes, ainda teve tempo de pegar no telemóvel e mandar uma foto da sua agonia para o «feicebuque».

[Participação no desafio 15 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Auto-retrato de um condenado à morte».]

Vida a crédito



Morto ou vivo, jamais lhe tirariam o gosto pelos fatos Armani e pelos carros de alta cilindrada. Olhou os cartões de crédito inúteis, ajeitou o cabelo e mergulhou no vazio.

[Participação no desafio 15 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Auto-retrato de um condenado à morte».

Bigode


 
Palavra de honra, disse, quem foi o engraçadinho que fez um bigode no meu quadro?

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».]

Abandono escolar



Sem honra, nem glória, desistiu da escola, farto de ir ao quadro.

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».]

«Decência»


Nu na rede - Óscar Pereira da Silva (truncado)
Pegou no pincel e honrou o quadro. Era um nu indecente. Agora, já não.

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».]

sábado, 7 de julho de 2012

Quatro em um


Quem será o personagem mistério?

1. Onze valores. Era quanto valia a honra daquele quadro.
 
2. Para o chefe, a falta de honra do seu quadro era «um não assunto».

3. Era um quadro turvo com uma honra ainda mais turva. Foi turbo-licenciado.

4. O rasto de um governante sem honra é um quadro devastador.

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».
Escritos a partir de um assunto da actualidade política nacional]

A saga do tio Arlindo (3)


Pantalone - Personagem da Commedia italiana.
O quadro de honra do tio Arlindo estava cheio de paradoxos: tinha axiomas esquerdinos e jactâncias dextras.

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».]

Risco



Oculto atrás do quadro, um envelope põe em risco a honra dele.

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».

Declaração de inocência


 
Ferido na sua honra, escreveu no quadro: não fui eu!

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de honra».

Pose


Nu - Picasso
Ela estava disposta a perder a honra, depois ter posado para o quadro dele. Ele mandou-a vestir.

[Participação no desafio 14 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Quadro de Honra»]

Reclusão



A mãe sempre lhe dissera que aquilo lá fora era uma selva. Por isso, nunca saiu de casa para ir à escola, brincar com amigos ou namorar. Quando a velha se finou, achou-se sozinho, com 65 anos e sem saber nada do mundo.

[Participação no desafio 13 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Prisão domiciliária».

A saga do tio Arlindo (2)


Pantalone - personagem da Commedia italiana.
Quase em prisão domiciliária vivia o tio Arlindo. Devido às suas crises de lateralidade, só se atrevia a sair de casa aos domingos. Nos dias «dextros» lia os jornais e nos «esquerdinos» coleccionava telenovelas.

[Participação no desafio 13 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Prisão domiciliária».]  

Trabalho a dobrar



- Jaime - disse o pai - estás promovido. Mas agora trabalhas a dobrar...
O rapaz largou a vassoura, pegou num molho de camisas e agradeceu a sua nova tarefa na lavandaria da família.

[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]  

A fera atraiçoada



Em público, era um cavalheiro, mas virava fera mal entrava em casa. A mulher, vítima das suas fúrias, ruminava planos de vingança. Um dia, aproveitando a passagem de um circo, fugiu com o domador de leões.

[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».

Aventuras intra-conjugais



Anos de casamento trouxeram a rotina e o tédio. Secretamente, começaram ambos a procurar parceiros de aventura nas redes sociais. Reencontraram-se num quarto de hotel, depois de se terem seduzido um ao outro sob identidades supostas.

[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».

A saga do tio Arlindo (1)


Pantalone - personagem da comédia italiana
Vida dupla tinha o tio Arlindo. Às segundas, quartas e sextas era dextro, às terças, quintas e sábados era esquerdino e aos domingos dava-nos com os pés.

[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».

O não-dilema do careca


Máscara de Amável Antão (Trás-os-Montes)
Ele já sabia a história do homem que tinha uma mulher nova e outra velha e como uma lhe arrancara os cabelos brancos e a outra os pretos. Encolheu os ombros: era careca.

[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».

As fotos da tia Emília


Pedro fecha a revista gasta e desbotada e esconde-a atrás do armário do WC.
No dia seguinte, voltará a babar-se sobre as fotos desnudas da tia Emília.
- Era podre de boa, a velha.

[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]

Provérbios à mãe


Mother and Child - Jean-Baptiste Greuze
Mais vale ir [a mãe] do que mandar [o filho].
As [mães] apressadas parem os filhos [e seguem].
[Enquanto a mãe não chega], a fome [do filho] é a melhor cozinheira.
A lei [da mãe] é dura, mas é para se cumprir [quase sempre].
«Albarda-se» o filho à vontade [da mãe]? Burro!
Ande o frio por onde andar, [a mãe há-de cá estar para nos agasalhar].
Antes quero [mãe] que me [en]leve, que [madrasta] que me derrube.
Ao menino e ao [tacho] põe [a mãe] a mão por baixo.
As [más] aparências [do filho] [des]iludem [a mãe].

[Participação no desafio 11 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Humor de mãe».

Segredo


Temptation (Mother and Child) by William-Adolphe Bouguereau
«Vou contar-te um segredo, mãe. Parei os relógios todos cá de casa e o tempo anda desorientado. Assim, ficarás sempre comigo.»Mas a mãe tinha dentro de si um tiquetaque inadiável...

[Participação no desafio 11 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Humor de mãe».]

Despedida

«Les amants», René Magritte, 1928
Resposta ao desafio nº 11 do blogue 77palavras.blogspot.pt, da escritora Margarida Fonseca Santos.
 
Ele: A tua boca é um poema ardente.
Ela: E os nossos beijos falam de ilhas secretas, ocultas no oceano dos olhos.
Ele: Então vem comigo. Os meus dedos afagarão eternamente a erva dos teus cabelos.
Ela: Não posso. Na água que deles escorre acumulam-se as lágrimas amargas que nunca chorei.
Ele: Se assim é, partamos, embalados pelos odores da maresia.
Ela: Sim, partamos, que a alvorada já nos pesa nas pálpebras.
Partiram, então, em direcções opostas.

Mais vale a voar... que na mão



Resposta ao desafio nº 10 do blogue http://77palavras.blogspot.pt/ de Margarida Fonseca Santos.

«Mais vale um pássaro na mão, que dois a voar», diz a voz metafórica do povo. Mas a ganância do Luís leva o dito à letra, tentando capturar o máximo possível de aves, sobretudo aquelas cujo canto as torna preciosas.
O Francisco, rapazinho de sentimentos, é que não está pelos ajustes e sabota as armações do outro. A cada avezita que consegue livrar, diz:
- Um, dois: mais vale a voar, pássaro, que na mão do passarinheiro.

Parafraseando La Fontaine em 77 palavras


Resposta ao desafio nº 9 do blogue Histórias em 77 palavras, de Margarida Fonseca Santos.

[A corrida da lagarta e da formiga]


Está a lagarta sossegada a comer. Diz-lhe a formiga:
- És tão indolente. Aceitas correr a maratona contra mim?
A lagarta pensa:
- Esta é mesmo tonta, não conhece o segredo das lagartas.
Responde:
- Só se a corrida demorar sete dias e sete noites.
A formiga desata a correr.
A lagarta metamorfoseia-se. Ao sétimo dia, as asas estão prontas. Levanta voo, passa sobre a esfalfada formiga e corta a meta.
Despeitada, a formiga morre de apoplexia.

Uma breve história de amor (em 77 palavras)

«At last» - Lauri Blank
Resposta ao desafio nº 8 do blogue Histórias em 77 palavras, de Margarida Fonseca Santos.

Retornam os pássaros aos ramos do plátano. Passos apressados ressoam nas pedras da calçada. O ladrar remoto dos cães ecoa por entre as casas. A oeste, o sol despede-se do mar.
Mas eles nem dão pelo passar do tempo. Soltaram as rédeas do coração e perderam-se no caos das emoções. Sentem apenas o tremor dos corpos, o alento do ar nos colos, a presença. Recordam a doce promessa da canção: sem rota nem mapa, o amor acontece.

Rimance das sete meninas diferentes (em 77 palavras)


Resposta ao desafio nº 7 do blogue Histórias em 77 palavras, de Margarida Fonseca Santos.

Havia sete meninas
Comendo sete romãs,
Todas sete tão diferentes,
Mas todas elas irmãs.
Uma loira, outra morena,
Outra da cor do limão,
Uma da cor da castanha,
Outra negra de carvão,
Uma rubra como o sol,
Outra parda como a lua,
Todas sete de mãos dadas,
Cantando as sete na rua:
- O que importa a cor da pele
Se é o amor que nos sustem?
Sendo as sete tão diferentes,
Nós sete nos queremos bem.

Um baile clandestino em 77 palavras

«A dança», de Paula Rego
Resposta ao desafio nº 6 do blogue «77 palavras», de Margarida Fonseca Santos. 

De dia, viam-se pouco, resguardando-se dos olhares indiscretos. Mas mal o crepúsculo descia a cortina, abandonavam o recato das mansardas. Acendiam fogareiros e abriam pipas. As mãos se davam a outras mãos enternecidas. Ouvia-se o acordeão e o pandeiro e rompia o canto nas gargantas emudecidas. Pés febris matraqueavam a calçada e a festa tomava conta da rua, noite dentro… até chegar a madrugada. Quase pobres, pouco tinham de seu, mas… eram ricos de alegria. Quem diria...!

Brota a murta ao pé da porta

(Nascente do rio Lis, Fontes, Leiria)

Resposta ao desafio nº 5 do blogue «77 palavras», de Margarida Fonseca Santos. A frase do mote foi extraída do travalínguas «Esta burra torta…»

Brota a murta ao pé da porta

Brota a água da nascente do rio, depois da chuva.
A torrente arrasta o musgo das pedras, o acanto, a
murta e as azedas que despontam ao longo das margens.
Ao seu ímpeto avassalador nada escapa. Ouve-se, mesmo aqui ao
, o rugido da grota, dando novo sentido ao fluxo
da saraivada. Como se a montanha abrisse a sua íntima
porta e dela se esvaísse toda a dor do mundo.

Um bule rachado em 77 palavras

Fotomontagem de Carlos A. Silva
 A escritora Margarida Fonseca Santos lançou no seu blogue «histórias em 77 palavras» uma proposta: que os interessados escrevam as suas próprias histórias, com 77 palavras, obedecendo às regras que vai sugerindo, e as enviem para ela.
Quando descobri e decidi aceitar, já ia no desafio nº 4. Dei o meu contributo, a partir das palavras «Sou um bule rachado, sou...». Aqui está o resultado:

Sou um bule rachado, sou… testemunha do esplendor de uma nobre e distinta casa. Trago comigo as memórias das inúmeras «soirées» em que servi as mais refinadas infusões, as mais delicadas tisanas. À minha volta, reuniram-se os mais elegantes penteados, as mais requintadas «toilettes»…
Mas não pensem que deploro a minha actual condição, consequência do descuido de uma mão desastrada…
Nunca fui tão feliz como agora: albergo no ventre o amor perfumado de um pé de sardinheira.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A salsicha albina


Uma salsicha comum vivia amargurada com o estranho facto de sofrer de albinismo. Enquanto as suas irmãs exibiam uma tez digna dos efeitos de um Verão soalheiro, ela, por sua vez, era pálida e mirrada como um espargo desidratado. Já tinha tentado de tudo, mas não havia processo de bronzeamento - natural ou artificial - que lhe pudesse valer. Albina nascera, albina haveria de fenecer.
As outras salsichas, embora não se aproveitassem do facto para abusar dela, não conseguiam passar sem, ocasionalmente, fazer alguns comentários jocosos. O que irritava ainda mais a albina, que achava a atitude das irmãs de uma condescendência insuportável.
Se por frustração ou por inveja, não se sabe. O que é certo é que o deslavado enchido acabou por se tornar no manda-chuva da salsicharia. E, durante anos, vem cozinhando acordos e apoios para se manter no poleiro, hipotecando a sua consciência junto da clique carnívora que vive à custa do sangue, do suor e das lágrimas das suas irmãs.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O anúncio


Tudo quanto é profissional da «calhandrice» nacional estava a postos para o anúncio.
A reunião dos carnívoros continuava para lá da hora anunciada e só após o seu termo a comunicação teria lugar. Até as moscas se impacientavam nos cafés, zumbindo, neuróticas, acima das melenas dos clientes. E o raio do anúncio que nunca mais vinha…
Nas cantinas, bares e restaurantes da populaça ou nos esconsos das cozinhas domésticas faziam-se vaticínios e apostas. A velha truta cínica e dura seria refogada em molho de vinho branco… Não, diziam alguns, seria assada ao natural ou frita em azeite virgem. Seria estufada ou cozida, apostavam outros.
Embora com opiniões tão diversas sobre a metodologia a adoptar, muita gente achava possível um «happy end» culinário que desse fim à prosápia de tão incómodo ser.
Engano deles. Quando, finalmente, o anúncio chegou, todas as expectativas caíram por terra. Nem refogada, nem assada, nem frita, nem estufada, nem cozida. A velha truta cínica e dura ia continuar a dar à barbatana no tal riacho de montanha onde era rainha e senhora.
Pois é, esqueciam-se que os carnívoros são obstinados e calculistas e apreciam outras iguarias: preferem ferrar a dentuça no pescoço dos animais de sangue quente.