[Participação no desafio 13 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Prisão domiciliária».]
Contos curtos de Carlos Alberto Silva, resultado das colaborações na página do Facebook «Escrita de microficção», no blogue «77 palavras» e outros. [Todos os textos são redigidos em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
sábado, 7 de julho de 2012
Reclusão
[Participação no desafio 13 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Prisão domiciliária».]
A saga do tio Arlindo (2)
![]() |
| Pantalone - personagem da Commedia italiana. |
Quase em prisão domiciliária vivia o tio Arlindo. Devido às
suas crises de lateralidade, só se atrevia a sair de casa aos domingos. Nos
dias «dextros» lia os jornais e nos «esquerdinos» coleccionava telenovelas.
[Participação no desafio 13 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Prisão domiciliária».]
[Participação no desafio 13 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Prisão domiciliária».]
Etiquetas:
escrita de microficção,
tio Arlindo
Trabalho a dobrar
- Jaime - disse o pai - estás promovido. Mas agora trabalhas
a dobrar...
O rapaz largou a vassoura, pegou num molho de camisas e
agradeceu a sua nova tarefa na lavandaria da família.
[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]
[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]
A fera atraiçoada
Em público, era um cavalheiro, mas virava fera mal entrava em casa. A mulher, vítima das
suas fúrias, ruminava planos de vingança. Um dia, aproveitando a passagem de um
circo, fugiu com o domador de leões.
[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]
[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]
Aventuras intra-conjugais
Anos de casamento trouxeram a rotina e o tédio.
Secretamente, começaram ambos a procurar parceiros de aventura nas redes
sociais. Reencontraram-se num quarto de hotel, depois de se terem seduzido um
ao outro sob identidades supostas.
[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]
[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]
A saga do tio Arlindo (1)
![]() |
| Pantalone - personagem da comédia italiana |
[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]
Etiquetas:
escrita de microficção,
tio Arlindo
O não-dilema do careca
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| Máscara de Amável Antão (Trás-os-Montes) |
Ele já sabia a história do homem que tinha uma mulher nova e
outra velha e como uma lhe arrancara os cabelos brancos e a outra os pretos.
Encolheu os ombros: era careca.
[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]
[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]
As fotos da tia Emília
Pedro fecha a revista gasta e desbotada e esconde-a atrás do armário do WC.
No dia seguinte, voltará a babar-se sobre as fotos desnudas
da tia Emília.
- Era podre de boa, a velha.
[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]
[Participação no desafio 12 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Família com vida dupla».]
Provérbios à mãe
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| Mother and Child - Jean-Baptiste Greuze |
As [mães] apressadas parem os filhos [e seguem].
[Enquanto a mãe não chega], a fome [do filho] é a melhor
cozinheira.
A lei [da mãe] é dura, mas é para se cumprir [quase sempre].
«Albarda-se» o filho à vontade [da mãe]? Burro!
Ande o frio por onde andar, [a mãe há-de cá estar para nos
agasalhar].
Antes quero [mãe] que me [en]leve, que [madrasta] que me
derrube.
Ao menino e ao [tacho] põe [a mãe] a mão por baixo.
As [más] aparências [do filho] [des]iludem [a mãe].
[Participação no desafio 11 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Humor de mãe».]
[Participação no desafio 11 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Humor de mãe».]
Segredo
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| Temptation (Mother and Child) by William-Adolphe Bouguereau |
«Vou contar-te um segredo, mãe. Parei os relógios todos cá
de casa e o tempo anda desorientado. Assim, ficarás sempre comigo.»Mas a mãe tinha dentro de si um tiquetaque inadiável...
[Participação no desafio 11 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Humor de mãe».]
[Participação no desafio 11 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Humor de mãe».]
Despedida
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| «Les amants», René Magritte, 1928 |
Resposta ao desafio nº 11 do blogue 77palavras.blogspot.pt, da escritora Margarida Fonseca Santos.
Ele: A tua boca é
um poema ardente.
Ela: E os nossos
beijos falam de ilhas secretas, ocultas no oceano dos olhos.
Ele: Então vem
comigo. Os meus dedos afagarão eternamente a erva dos teus cabelos.
Ela: Não posso. Na
água que deles escorre acumulam-se as lágrimas amargas que nunca chorei.
Ele: Se assim é,
partamos, embalados pelos odores da maresia.
Ela: Sim,
partamos, que a alvorada já nos pesa nas pálpebras.
Partiram, então, em direcções opostas.
Mais vale a voar... que na mão
Resposta ao desafio nº 10 do blogue http://77palavras.blogspot.pt/
de Margarida Fonseca Santos.
«Mais vale um pássaro
na mão, que dois a voar», diz a voz metafórica do povo. Mas a ganância do Luís
leva o dito à letra, tentando capturar o máximo possível de aves, sobretudo
aquelas cujo canto as torna preciosas.
O Francisco, rapazinho de sentimentos, é que não está pelos
ajustes e sabota as armações do outro. A cada avezita que consegue livrar, diz:
- Um, dois: mais vale
a voar, pássaro, que na mão do passarinheiro.
Parafraseando La Fontaine em 77 palavras
Resposta ao desafio nº 9 do blogue Histórias em 77 palavras, de Margarida Fonseca Santos.
[A corrida da lagarta e da formiga]
Está a lagarta sossegada a comer. Diz-lhe a formiga:
- És tão indolente. Aceitas correr a maratona contra mim?
A lagarta pensa:
- Esta é mesmo tonta, não conhece o segredo das lagartas.
Responde:
- Só se a corrida demorar sete dias e sete noites.
A formiga desata a correr.
A lagarta metamorfoseia-se. Ao sétimo dia, as asas estão
prontas. Levanta voo, passa sobre a esfalfada formiga e corta a meta.
Despeitada, a formiga morre de apoplexia.
Uma breve história de amor (em 77 palavras)
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| «At last» - Lauri Blank |
Retornam os pássaros aos ramos do plátano. Passos apressados
ressoam nas pedras da calçada. O ladrar remoto dos cães ecoa por entre as casas.
A oeste, o sol despede-se do mar.
Mas eles nem dão pelo passar do tempo. Soltaram as rédeas do
coração e perderam-se no caos das emoções. Sentem apenas o tremor dos corpos, o
alento do ar nos colos, a presença. Recordam a doce promessa da canção: sem rota
nem mapa, o amor acontece.
Rimance das sete meninas diferentes (em 77 palavras)
Havia sete
meninas
Comendo sete
romãs,
Todas sete tão diferentes,
Mas todas elas irmãs.
Uma loira, outra morena,
Outra da cor do limão,
Uma da cor da castanha,
Outra negra de carvão,
Uma rubra como o sol,
Outra parda como a lua,
Todas sete de
mãos dadas,
Cantando as sete
na rua:
- O que importa a cor da pele
Se é o amor que nos sustem?
Sendo as sete tão
diferentes,
Nós sete nos queremos
bem.
Um baile clandestino em 77 palavras
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| «A dança», de Paula Rego |
De dia, viam-se
pouco, resguardando-se dos olhares indiscretos. Mas mal o crepúsculo descia
a cortina, abandonavam o recato das mansardas. Acendiam fogareiros e abriam pipas.
As mãos se davam a outras mãos enternecidas. Ouvia-se o acordeão e o pandeiro e
rompia o canto nas gargantas emudecidas. Pés febris matraqueavam a calçada e a
festa tomava conta da rua, noite dentro… até chegar a madrugada. Quase pobres,
pouco tinham de seu, mas… eram ricos de alegria. Quem diria...!
Brota a murta ao pé da porta
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| (Nascente do rio Lis, Fontes, Leiria) |
Resposta ao desafio nº 5 do blogue «77 palavras», de Margarida Fonseca Santos. A frase do mote foi extraída do travalínguas «Esta burra torta…»
Brota
a murta ao pé da porta
Brota
a água da nascente do rio, depois da chuva.
A torrente arrasta o musgo das pedras, o acanto, a
murta
e as azedas que despontam ao longo das margens.
Ao
seu ímpeto avassalador nada escapa. Ouve-se, mesmo aqui ao
pé,
o rugido da grota, dando novo sentido ao fluxo
da
saraivada. Como se a montanha abrisse a sua íntima
porta
e dela se esvaísse toda a dor do mundo.
Um bule rachado em 77 palavras
![]() |
| Fotomontagem de Carlos A. Silva |
A escritora Margarida Fonseca Santos lançou no seu blogue «histórias em 77 palavras» uma proposta: que os interessados escrevam as suas
próprias histórias, com 77 palavras, obedecendo às regras que vai sugerindo, e as enviem para ela.
Quando descobri e decidi aceitar, já ia no desafio nº 4. Dei o meu contributo, a partir das palavras
«Sou um bule rachado, sou...». Aqui está o resultado:
Sou
um bule
rachado, sou… testemunha do esplendor de uma nobre e distinta casa.
Trago comigo as memórias das inúmeras «soirées» em que servi as mais
refinadas infusões, as mais delicadas tisanas. À minha volta,
reuniram-se os mais elegantes penteados, as mais requintadas
«toilettes»…
Mas não pensem que deploro a minha actual condição, consequência do descuido de uma mão desastrada…
Mas não pensem que deploro a minha actual condição, consequência do descuido de uma mão desastrada…
Nunca fui
tão feliz como agora: albergo no ventre o amor perfumado de um pé de sardinheira.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
A salsicha albina
Uma salsicha comum vivia amargurada com o estranho facto de sofrer de albinismo. Enquanto as suas irmãs exibiam uma tez digna dos efeitos de um Verão soalheiro, ela, por sua vez, era pálida e mirrada como um espargo desidratado. Já tinha tentado de tudo, mas não havia processo de bronzeamento - natural ou artificial - que lhe pudesse valer. Albina nascera, albina haveria de fenecer.
As outras salsichas, embora não se aproveitassem do facto para abusar dela, não conseguiam passar sem, ocasionalmente, fazer alguns comentários jocosos. O que irritava ainda mais a albina, que achava a atitude das irmãs de uma condescendência insuportável.
Se por frustração ou por inveja, não se sabe. O que é certo é que o deslavado enchido acabou por se tornar no manda-chuva da salsicharia. E, durante anos, vem cozinhando acordos e apoios para se manter no poleiro, hipotecando a sua consciência junto da clique carnívora que vive à custa do sangue, do suor e das lágrimas das suas irmãs.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
O anúncio
Tudo quanto é profissional da «calhandrice» nacional estava a postos para o anúncio.
A reunião dos carnívoros continuava para lá da hora anunciada e só após o seu termo a comunicação teria lugar. Até as moscas se impacientavam nos cafés, zumbindo, neuróticas, acima das melenas dos clientes. E o raio do anúncio que nunca mais vinha…
Nas cantinas, bares e restaurantes da populaça ou nos esconsos das cozinhas domésticas faziam-se vaticínios e apostas. A velha truta cínica e dura seria refogada em molho de vinho branco… Não, diziam alguns, seria assada ao natural ou frita em azeite virgem. Seria estufada ou cozida, apostavam outros.
Embora com opiniões tão diversas sobre a metodologia a adoptar, muita gente achava possível um «happy end» culinário que desse fim à prosápia de tão incómodo ser.
Engano deles. Quando, finalmente, o anúncio chegou, todas as expectativas caíram por terra. Nem refogada, nem assada, nem frita, nem estufada, nem cozida. A velha truta cínica e dura ia continuar a dar à barbatana no tal riacho de montanha onde era rainha e senhora.
Pois é, esqueciam-se que os carnívoros são obstinados e calculistas e apreciam outras iguarias: preferem ferrar a dentuça no pescoço dos animais de sangue quente.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
A truta anarquista que chegou a ministra

Qual Nemo, qual Pi? O peixe mais famoso deste jardim à beira mar plantado não dá à barbatana nas águas do oceano, mas num modesto córrego de montanha. É uma velha truta, cínica e dura, que governa uma boa parte dos espécimes piscícolas do dito riacho. Segundo uma versão veiculada por certas más-línguas (de bacalhau), a dita criatura militou, em jovem, nas minguadas hostes que vão mantendo acesa a chama do ideal libertário. No entanto, depois de um longo e tortuoso percurso, em que a sua ascensão académica foi inversamente proporcional à coerência ideológica, a dita truta acabou por se render ao doce fascínio do poder, aceitando um cargo ministerial. Constituiu uma trupe de ajudantes reverentes e acéfalos, entregando o comando intermédio a dois carapaus de corrida manhosos. E assim ficou a velha a mandar nos seus iguais, que passou a tratar com a desfaçatez e sobranceria próprias de quem ascende a tão altos cargos.
Ora, a dita cuja teve uma autêntica epifania quando tropeçou num obscuro manual de culinária dos tempos da «outra senhora». Depois de ler e reler as bolorentas receitas, capazes de encher de colesterol maléfico as artérias de um asceta vegetariano, a agora ministra decidiu do tratamento a dar aos outros peixes seus subordinados para poderem circular no tal riacho de montanha. Primeiro, dividiu-os em dois cardumes diferenciados. Uns seriam peixes-titulares, os outros apenas peixes-peixes. Os primeiros mandariam nos segundos e os segundos obedeceriam aos primeiros. Para além disso, seriam todos, sem excepção, sujeitos a um processo culinário complexo e burocrático em que o principal procedimento raiava a mais perversa crueldade: seriam, entre outras coisas, «grelhados» até à exaustão.
A princípio, as outras trutas, bogas, barbos, ruivacos e afins nem sabiam que pensar nem que dizer. Examinaram e dissecaram as arrevesadas directivas da truta e seus carapaus de estimação e chegaram à triste conclusão de que esta, ao contrário dos discursos inflamados, não estava absolutamente nada interessada na melhoria da qualidade do seu desempenho natatório. O seu propósito era apenas o de poupar uns tostõezitos no orçamento do governo carnívoro de que fazia parte.
Os visados começaram por esboçar alguns protestos tímidos, que suscitaram um violento contra-ataque da velha truta cínica e dura. Intentou até virar contra estes a restante fauna aquática da região, embora com reduzido sucesso.
Até que, recorrendo ao seu direito à indignação, os condenados à que ficou conhecida como «tortura da grelha» decidiram manifestar-se publicamente.
Cem mil. É verdade. Cem mil trutas, bogas, barbos, ruivacos e afins inundaram as artérias do riacho num ruidoso protesto. Mas, por incrível que pareça, a velha não desarmou. Ela, na infalibilidade da sua imensa sabedoria, decidira que seriam «grelhados» e «regrelhados» e não havia retorno da decisão.
Veio o Verão, a migração sazonal, a desova e restantes etapas da proliferação das espécies exóticas e endémicas e a coisa acalmou um pouco. No Outono, no entanto, os sentenciados não baixaram os braços e voltaram a encher as artérias do riacho com os seus protestos. Desta vez, foram cento e vinte mil. É verdade. Cento e vinte mil trutas, bogas, barbos, ruivacos e afins.
Mas a velha continua na sua. De prepotência em prepotência, de mentira em mentira, os carapaus de corrida e respectiva mestra divertem-se a testar o que resta da paciência dos outros peixes. Daí que estes não terão outro remédio senão cerrar fileiras e correr com o trio até ao mar. Pode ser que um tubarão esfomeado tropece neles e os almoce. Que lhe façam bom proveito!
Ora, a dita cuja teve uma autêntica epifania quando tropeçou num obscuro manual de culinária dos tempos da «outra senhora». Depois de ler e reler as bolorentas receitas, capazes de encher de colesterol maléfico as artérias de um asceta vegetariano, a agora ministra decidiu do tratamento a dar aos outros peixes seus subordinados para poderem circular no tal riacho de montanha. Primeiro, dividiu-os em dois cardumes diferenciados. Uns seriam peixes-titulares, os outros apenas peixes-peixes. Os primeiros mandariam nos segundos e os segundos obedeceriam aos primeiros. Para além disso, seriam todos, sem excepção, sujeitos a um processo culinário complexo e burocrático em que o principal procedimento raiava a mais perversa crueldade: seriam, entre outras coisas, «grelhados» até à exaustão.
A princípio, as outras trutas, bogas, barbos, ruivacos e afins nem sabiam que pensar nem que dizer. Examinaram e dissecaram as arrevesadas directivas da truta e seus carapaus de estimação e chegaram à triste conclusão de que esta, ao contrário dos discursos inflamados, não estava absolutamente nada interessada na melhoria da qualidade do seu desempenho natatório. O seu propósito era apenas o de poupar uns tostõezitos no orçamento do governo carnívoro de que fazia parte.
Os visados começaram por esboçar alguns protestos tímidos, que suscitaram um violento contra-ataque da velha truta cínica e dura. Intentou até virar contra estes a restante fauna aquática da região, embora com reduzido sucesso.
Até que, recorrendo ao seu direito à indignação, os condenados à que ficou conhecida como «tortura da grelha» decidiram manifestar-se publicamente.
Cem mil. É verdade. Cem mil trutas, bogas, barbos, ruivacos e afins inundaram as artérias do riacho num ruidoso protesto. Mas, por incrível que pareça, a velha não desarmou. Ela, na infalibilidade da sua imensa sabedoria, decidira que seriam «grelhados» e «regrelhados» e não havia retorno da decisão.
Veio o Verão, a migração sazonal, a desova e restantes etapas da proliferação das espécies exóticas e endémicas e a coisa acalmou um pouco. No Outono, no entanto, os sentenciados não baixaram os braços e voltaram a encher as artérias do riacho com os seus protestos. Desta vez, foram cento e vinte mil. É verdade. Cento e vinte mil trutas, bogas, barbos, ruivacos e afins.
Mas a velha continua na sua. De prepotência em prepotência, de mentira em mentira, os carapaus de corrida e respectiva mestra divertem-se a testar o que resta da paciência dos outros peixes. Daí que estes não terão outro remédio senão cerrar fileiras e correr com o trio até ao mar. Pode ser que um tubarão esfomeado tropece neles e os almoce. Que lhe façam bom proveito!
quarta-feira, 12 de março de 2008
O pepino mentiroso

No quintal das traseiras, havia um pouco de tudo: couves, alfaces, cenouras, nabos, feijões, tomates e outros legumes, incluindo uma batateira que ali nascera por engano. Mas o mais bizarro dos habitantes da horta era um pepineiro muito especial.
Enraizado debaixo de uma laranjeira, foi esticando a haste em direcção a um exuberante e perfumado roseiral, ao lado da casa, onde se situava a torneira de rega e havia mais luz. E, exactamente nessa extremidade, ostentava o único pepino da sua criação.
Com o tempo, o pepino foi engordando o corpo e a prosápia. Num ápice, tratou de dominar toda a horta, à custa das muitas artes e manhas que lhe surgiam não se sabe bem de onde. O seu principal argumento incluía um monumental paradoxo:
- Reparem bem: eu não sou um simples pepino. Reúno o melhor de dois mundos. Por via das raízes, ostento o delicado sabor das laranjas. E, por influência da vizinhança, exalo o perfume distinto das rosas. Se confiarem em mim, prometo que nada vos faltará e levarei a horta à prosperidade.
Os legumes deixaram-se levar, talvez por apatia, talvez porque não tivessem meios de desmentir a falácia. Mas, quando o dono da casa, ocupado com outros afazeres, descurou os cuidados da horta, o pepino aninhou o corpo rechonchudo na vala de rega e usurpou as poucas gotas que pingavam da torneira. Aos restantes, ordenou:
- Todos devem fazer sacrifícios. Se necessário, adubai a terra que vos deu vida, com os vossos corpos moribundos. O futuro da horta está em causa, bla-bla, bla-bla, bla-bla…
A coisa piorou com o tempo. Os legumes mirravam de sede e o descontentamento levou alguns à revolta:
- Um pepino que sabe a laranjas e cheira a rosas? Balelas! O tipo é mas é um ‘ganda’ mentiroso. Ele quer é usurpar os nossos direitos - dizia um.
Acicatada, toda a horta protestava:
- Deixa vir a água até nós. Não podemos aguentar mais sacrifícios.
E as couves, as alfaces, as cenouras, os nabos, os feijões, os tomates e outros legumes, incluindo a batateira que ali nascera por engano, gritavam em coro:
- Mentiroso, mentiroso. Mentiroso. Mentiroso.
Mas o pepino, colocado em posição estratégica, não abria mão dos seus privilégios.
Ora, como não há mal que sempre dure, nem bem que se não acabe, um dia, o dono da casa foi ao quintal, de sachola em punho. Entre outras coisas, tinha na intenção apanhar umas folhas de couve para fazer uma sopa. Mas deu-se conta que estava tudo a morrer de sede. No caminho, topou com o pepino, verde e viçoso, e levou-o. Depois, abriu a torneira e dessedentou a horta.
Com o produto da colheita, fez uma portentosa salada. Que se saiba, não sabia a laranjas, nem cheirava a rosas. Mas soube-lhe muito bem.
Do pepino mentiroso, sobraram apenas as cascas, que os coelhos roeram com grande satisfação.
segunda-feira, 10 de março de 2008
A convenção dos orégãos

Foi no maior sigilo que se realizou, no passado fim-de-semana, a convenção anual da Grande Loja do Orégão Dourado. O evento reuniu, num hotel da capital, todos os membros desta conhecida sociedade secreta, a que pertencem as mais destacadas individualidades da Nação, responsáveis da administração pública e outros notáveis.
Ao que conseguimos apurar, um dos objectivos desta iniciativa foi a escolha do Orégão Maior da organização, cargo disputado por três candidatos cuja identidade não foi revelada. No final, teve lugar uma refeição ritual, cujo menu era constituído principalmente por pratinhos de pipis, iscas com elas e caracóis.
sábado, 23 de fevereiro de 2008
A morcela viajante

Uma morcela de arroz decidiu ir correr mundo. Andou, andou, até que chegou à beira do oceano. Como não lhe apeteceu voltar para trás, deitou-se à água e pôs-se a navegar pelo mar dentro. Pouco depois, uma gaivota que andava à pesca deu com a morcela vogando nas ondas e pensou logo que tinha ali um belo almoço. Abriu o bico e mergulhou das alturas em direcção à água. A morcela viu as manobras da gaivota, mas não perdeu o sangue frio. Quando o passaroco estava quase a filá-la, a morcela desviou-se com um golpe de rins. A gaivota bateu de chapa na água e perdeu os sentidos. Um safio que ia a passar admirou-se da coragem da morcela e pediu-a logo, logo, em casamento. Mas a morcela não aceitou. Agradeceu polidamente, retorquindo:
- Obrigada, meu bom amigo, mas não. Acredito que tenhas boas intenções. Mas eu sou uma morcela emancipada e não tenho nos meus projectos mudar fraldas borradas e apaparicar calaceiros. O meu destino é correr mundo. E é o que vou fazer.
E foi.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
A vingança do guardanapo

Um guardanapo alvo e engomado foi admitido como agente da Guarda. O comandante do posto, um esfregão grosseiro e insolente, achava que o guardanapo era demasiado fino para o exercício daquelas funções e estava sempre a implicar com ele.
- Olhe lá, você não será antes um guarda-nabo? Isto aqui é para gajos de barba rija. E quando as coisas não vão a bem, vão mesmo à bruta. Como é que você, um engomadinho do caraças, vai fazer valer a sua autoridade, se nem pêlo tem na venta, hã?
O pobre guardanapo ficava humilhadíssimo com estes comentários boçais, mas engolia em seco e permanecia em silêncio. É que ele, quando se enervava, gaguejava descontroladamente. E imaginava o vexame que passaria se descobrissem nele aquilo que seria considerado como mais uma fraqueza.
Foi ouvindo, foi engolindo, foi enchendo, mas aguentava-se estoicamente, fingindo que fazia orelhas moucas às provocações do sargento esfregão… embora, por dentro, ficasse a ferver.
Numa tarde de pouco movimento - estava o posto cheio de agentes - ao ouvir mais uma série de ordinarices do comandante, não aguentou mais e rebentou.
- Vá-vá-á lim-lim-limpar la-latrinas, seu-seu la-lateiro.
Atirou o bivaque para cima do balcão de atendimento e saiu porta fora. O resto da corporação ria perdidamente.
- Ó pá! O gajo não é só engomadinho, também é gago - dizia um escovilhão lambe-botas.
- Pois. É um engo-gugu-mamadinho - respondeu outro.
- Eu é que tinha razão. É um verdadeiro guarda-nabo - rematou o comandante.
Mas cá se fazem, cá se pagam! Quando o esfregão chegou a casa, ao fim do dia, ia tendo um chilique. A mulher, uma bela toalha de bilros, tinha feito as malas e fugira para o Brasil com o guardanapo.
domingo, 17 de fevereiro de 2008
O «croissant» solitário

Um «croissant» simples vivia só, num apartamento dos subúrbios de uma grande cidade. As noites passava-as ele bem, porque trabalhava numa padaria e o odor do pão acabado de cozer fazia-o esquecer todas as suas mágoas. O pior era de dia, quando voltava para casa e se confrontava com a sua solidão.
Um dia, pôs um anúncio no jornal, propalando o seu desejo de arranjar uma companheira.
Responderam duas candidatas: uma elegante fatia de queijo e uma saudável e vigorosa fatia de presunto. Se uma reunia o requinte e a sofisticação próprias das damas da alta sociedade, a outra tinha todo o encanto das gentes enérgicas do campo.
Depois de um tempo de indecisão, acabou por ficar com as duas, a dama e a camponesa. Vivem os três em alegre harmonia, numa vivenda de Cascais que o «croissant», agora misto, recebeu de herança.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Os três candidatos laranja

Numa rua de Pombal, três gomos de laranja discutiam entre si qual deles tinha o perfil mais adequado para deputado da Nação.
O primeiro argumentava com os seus doutos conhecimentos das complexas regras do ténis de mesa. O segundo, equilibrado perigosamente em cima de um postal dos correios, falava das suas viagens por terras distantes e do seu domínio das grafias estrangeiras.
O terceiro barafustava com os outros dois dizendo que sempre tinha sido o mais inteligente dos três e não admitia sequer que pusessem em causa aquilo que para ele era evidente: o deputado seria ele mesmo, sem mais argumentos nem palavreados ocos.
Um rapazinho que vinha a correr pela rua abaixo espantou-se com aquela algaraviada. Parou, olhou para eles, pegou num de cada vez e comeu-os, que muito bem lhe souberam.
E assim perdeu a Nação três dos seus melhores candidatos a deputados. Mas, até hoje, ainda ninguém reparou.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
A ervilha capitalista

Toda a gente se lembra da famosa princesa que afirmou a pureza da sua estirpe ao dar-se por incomodada com uma ervilha que estava muito quieta e calada debaixo de uma caterva de colchões, edredões, travesseiros, mantas, cobertores e outros agasalhos sobre os quais dormira (coitado do príncipe que casou com ela; com uma tipa tão comichosa, deve ter passado as passas do Algarve…). O que ninguém se perguntou ainda, foi: «Então e a ervilha? A ervilha não é gente? Que foi que lhe aconteceu?» É exactamente o percurso dessa ilustre leguminosa que aqui vamos tentar desvendar.
Depois de constatar que a dita não fazia parte das jóias reais nem estava num museu (conforme sugerem as crónicas da época), iniciámos uma intensa investigação que nos conduziu aos baixos do palácio. É que é normalmente aí que se situa a cozinha.
A opinião do cozinheiro foi de que a ervilha, para provocar tanto chinfrim, já não estava em estado de ser cozinhada. Era, de certeza, uma ervilha seca, boa para a sementeira. E o melhor seria perguntar ao hortelão real se ouvira falar dela. Mas o hortelão não soube adiantar mais nada. Pelo que decidimos dar outro rumo à investigação.
Deixámos o palácio atrás das brumas da fantasia e dirigimo-nos ao mundo real. O do capitalismo selvagem, da pobreza endémica e da violência gratuita. Foi aí que a encontrámos. Desgostosa com a pouca importância que tivera na história - embora reconhecesse a Hans Christian Andersen «uma grande capacidade efabulatória» - a ervilha tinha batido com a porta para fazer pela vida noutras paragens. Entre outras coisas, fez parte de um «gang» mafioso, onde estava encarregue das torturas, mas as suas pretensas vítimas não tinham a sensibilidade cutânea da princesa da história. Tentou ainda a carreira militar, mas o máximo que conseguira realizar fora um «galo» na tola rapada de um recruta desmiolado, ao ser projectada por outro recruta desmiolado. Acabara por se tornar empresária do ramo alimentar.
Estava nesse momento a tratar da «deslocalização» de uma das suas fábricas para um país de Leste. Perguntámos o que ia acontecer aos 324 trabalhadores que essa decisão lançava para o desemprego. «É um mundo cão - desabafou - mas o que havemos de fazer?» E voltou-nos as costas, dizendo: «O capitalismo não tem pátria».
Pois é! Mas, à conta disso, são sempre os mesmos que pagam as favas!
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
A tartaruga amnésica
Na longínqua e misteriosa China, andava uma velhinha vasculhando os rochedos da maré baixa à procura de algo para comer quando encontrou uma pequena tartaruga marinha. «Que bela sopa vou eu fazer com esta tartaruga» pensou; pegou nela e levou-a para casa.
A tartaruga, que embora pequena era ainda mais velha que a velhinha, não teve outro remédio senão conformar-se com a sua pouca sorte. Já tinha percorrido tantas milhas ao longo dos oceanos do mundo, já tinha deixado os seus ovos em tantas praias arenosas, que se dava por satisfeita com a vida que tinha tido.
Chegada a casa, a velhinha colocou a tartaruga sobre a mesa da cozinha e foi apanhar umas ervas aromáticas para a sopa. A tartaruga, assim que se sentiu imóvel, deitou a cabeça de fora da carapaça e viu que estava sozinha. Estendeu as barbatanas e tentou descer da mesa. Mas, como não reunia as competências físicas para o fazer, deu um enorme trambolhão, bateu com a cabeça e perdeu os sentidos. Quando voltou a si, tinha perdido todas as referências sobre a sua identidade e experiência passada. Estava amnésica.
Por uma estranha associação de ideias, a tartaruga amnésica convenceu-se que era um cão. Quando a velhinha voltou, encontrou-a no chão, a latir, correndo atrás do rabo.
A encarquilhada chinesinha não ganhou para o susto. Mas, passada a perplexidade inicial, pensou para os seus botões: «Se os deuses fizeram chegar a mim esta extraordinária criatura, decerto não foi para que eu fizesse dela uma sopa. Devem ter-se apiedado da minha solidão e enviaram-me uma companhia para me alegrar até ao fim dos meus dias».
E foi assim que a tartaruga passou de projecto gastronómico a animal de companhia. Daí aquele provérbio chinês que diz: «Nem só os cães ladram: as cadelas também; e por vezes as tartarugas».
A tartaruga, que embora pequena era ainda mais velha que a velhinha, não teve outro remédio senão conformar-se com a sua pouca sorte. Já tinha percorrido tantas milhas ao longo dos oceanos do mundo, já tinha deixado os seus ovos em tantas praias arenosas, que se dava por satisfeita com a vida que tinha tido.
Chegada a casa, a velhinha colocou a tartaruga sobre a mesa da cozinha e foi apanhar umas ervas aromáticas para a sopa. A tartaruga, assim que se sentiu imóvel, deitou a cabeça de fora da carapaça e viu que estava sozinha. Estendeu as barbatanas e tentou descer da mesa. Mas, como não reunia as competências físicas para o fazer, deu um enorme trambolhão, bateu com a cabeça e perdeu os sentidos. Quando voltou a si, tinha perdido todas as referências sobre a sua identidade e experiência passada. Estava amnésica.
Por uma estranha associação de ideias, a tartaruga amnésica convenceu-se que era um cão. Quando a velhinha voltou, encontrou-a no chão, a latir, correndo atrás do rabo.
A encarquilhada chinesinha não ganhou para o susto. Mas, passada a perplexidade inicial, pensou para os seus botões: «Se os deuses fizeram chegar a mim esta extraordinária criatura, decerto não foi para que eu fizesse dela uma sopa. Devem ter-se apiedado da minha solidão e enviaram-me uma companhia para me alegrar até ao fim dos meus dias».
E foi assim que a tartaruga passou de projecto gastronómico a animal de companhia. Daí aquele provérbio chinês que diz: «Nem só os cães ladram: as cadelas também; e por vezes as tartarugas».
domingo, 3 de fevereiro de 2008
O mandato do peixe pré-histórico
Há várias maneiras de confirmar a frescura de um peixe. O brilho dos olhos, a vermelhidão das guelras, a rigidez das carnes, a integridade das escamas e o próprio odor são apenas alguns sinais. Mesmo conservado à força de gelo e sal, mesmo escamado e estripado, vê-se logo se um peixe é ou não fresco.
Mas há um peixe que, mesmo vivo e a dar à barbatana, é mais retrasado que um espécime congelado no tempo em que se inventou o primeiro frigorífico. É o peixe pré-histórico, que cruza as profundezas dos mares desde há milhões de anos. É tão antigo que, ainda os dinossauros não existiam, já ele abanava a cauda no caldo primordial. Não se sabe por que capricho da natureza, mesmo depois dos grandes lagartos se terem transformado em curiosidades de pedra, ainda o peixe pré-histórico continua a percorrer os oceanos, com o seu ar sisudo e carrancudo.
Ora, certo peixe pré-histórico foi um dia convidado por um cardume de peixitos para se candidatar a uma autarquia das profundezas. A princípio, mostrou-se relutante, mas acabou por sucumbir ao discurso melífluo dos peixitos: que era preciso destronar o bacalhau que então os chefiava, que era preciso abrir espaço à livre iniciativa, que era preciso isto, que era preciso aquilo… E aquele que tinha melhores condições para o fazer era ele, pois então. Mesmo que fosse feio que nem uma alforreca, mesmo que se portasse à mesa como um carroceiro, mesmo que não ousasse alinhavar quatro palavras sem cometer um atentado à inteligência, isso eram pormenores sem importância.
O que é certo é que aceitou o repto e ganhou por uma unha negra. Embora a prazo, tornou-se o líder supremo de todos os cardumes das redondezas.
Mas depressa o escamudo pré-histórico achou que autarquia rimava bem com autocracia. Eram ambas a mesma coisa. Ou não? Claro que sim. Não?
Quem tinha a ousadia de o desdizer levava logo no toutiço: começou de imediato a devorar os opositores e os possíveis concorrentes ao cargo. É que afinal era carnívoro e ninguém sabia.
Os peixitos puseram as barbatanas à cabeça, imaginando que teriam de suportar o labrego durante mais um milhão de anos. Tinham-na feito bonita. E agora?
A primeira ideia foi armar-lhe uma cilada e fazer com que fosse parar ao prato de algum «gourmet». Mas a profundidade a que se movimentava deixava-o a salvo das redes pesqueiras. Por isso é que tinha vivido tanto tempo…
Decidiram apoiar outros candidatos, tentando derrotá-lo nas eleições. Mas estes ou eram devorados antes do acto cívico, ou ninguém votava neles, com medo de ser devorado também.
Decidiram acusá-lo de corrupção, para o forçar a perder o mandato. Mas também não deu resultado…
A sorte, às vezes, surge quando menos se espera. Afinal o peixe pré-histórico acabou por abandonar o poder por causas naturais. Como era muito velho, não aguentava dietas ricas em proteínas, teve uma indigestão e morreu.
No funeral, os peixitos fingiram uma tristeza que não sentiam e lá mandaram o cadáver do odiado líder para o abismo dos notáveis.
Mas há gente que nunca ganha juízo: no dia seguinte, trataram de se reunir para escolher um novo candidato. E a discussão em que se envolveram era se deviam apoiar o bacalhau ou convidar um tubarão.
Mas há um peixe que, mesmo vivo e a dar à barbatana, é mais retrasado que um espécime congelado no tempo em que se inventou o primeiro frigorífico. É o peixe pré-histórico, que cruza as profundezas dos mares desde há milhões de anos. É tão antigo que, ainda os dinossauros não existiam, já ele abanava a cauda no caldo primordial. Não se sabe por que capricho da natureza, mesmo depois dos grandes lagartos se terem transformado em curiosidades de pedra, ainda o peixe pré-histórico continua a percorrer os oceanos, com o seu ar sisudo e carrancudo.
Ora, certo peixe pré-histórico foi um dia convidado por um cardume de peixitos para se candidatar a uma autarquia das profundezas. A princípio, mostrou-se relutante, mas acabou por sucumbir ao discurso melífluo dos peixitos: que era preciso destronar o bacalhau que então os chefiava, que era preciso abrir espaço à livre iniciativa, que era preciso isto, que era preciso aquilo… E aquele que tinha melhores condições para o fazer era ele, pois então. Mesmo que fosse feio que nem uma alforreca, mesmo que se portasse à mesa como um carroceiro, mesmo que não ousasse alinhavar quatro palavras sem cometer um atentado à inteligência, isso eram pormenores sem importância.
O que é certo é que aceitou o repto e ganhou por uma unha negra. Embora a prazo, tornou-se o líder supremo de todos os cardumes das redondezas.
Mas depressa o escamudo pré-histórico achou que autarquia rimava bem com autocracia. Eram ambas a mesma coisa. Ou não? Claro que sim. Não?
Quem tinha a ousadia de o desdizer levava logo no toutiço: começou de imediato a devorar os opositores e os possíveis concorrentes ao cargo. É que afinal era carnívoro e ninguém sabia.
Os peixitos puseram as barbatanas à cabeça, imaginando que teriam de suportar o labrego durante mais um milhão de anos. Tinham-na feito bonita. E agora?
A primeira ideia foi armar-lhe uma cilada e fazer com que fosse parar ao prato de algum «gourmet». Mas a profundidade a que se movimentava deixava-o a salvo das redes pesqueiras. Por isso é que tinha vivido tanto tempo…
Decidiram apoiar outros candidatos, tentando derrotá-lo nas eleições. Mas estes ou eram devorados antes do acto cívico, ou ninguém votava neles, com medo de ser devorado também.
Decidiram acusá-lo de corrupção, para o forçar a perder o mandato. Mas também não deu resultado…
A sorte, às vezes, surge quando menos se espera. Afinal o peixe pré-histórico acabou por abandonar o poder por causas naturais. Como era muito velho, não aguentava dietas ricas em proteínas, teve uma indigestão e morreu.
No funeral, os peixitos fingiram uma tristeza que não sentiam e lá mandaram o cadáver do odiado líder para o abismo dos notáveis.
Mas há gente que nunca ganha juízo: no dia seguinte, trataram de se reunir para escolher um novo candidato. E a discussão em que se envolveram era se deviam apoiar o bacalhau ou convidar um tubarão.
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