Fosse qual fosse a ocorrência, desde que saísse da rotina habitual, era sempre tomada como um sinal fatídico por um certo bife do lombo. É que ele era muito, mas mesmo muito supersticioso.
Se lhe passasse um gato preto pela frente, era certo que se benzeria sete vezes e sete vezes invocaria a protecção dos bons espíritos contra a desgraça que ameaçava cair-lhe em cima. Mas o mesmo aconteceria se o gato fosse cinzento, branco, amarelo ou malhado, tão supersticioso era este bife do lombo.
A sua vida era cheia de complexos rituais, rezas, invocações, promessas, peregrinações e outras manias e aberrações, tanto se encarniçava na luta contra o azar.
E assim queimou os seus melhores anos. Não casou, não teve filhos, não plantou nenhuma árvore, nem escreveu nenhum livro. Acabou, como muitos outros bifes do lombo, rilhado por um conviva voraz, numa boda de casamento.
Contos curtos de Carlos Alberto Silva, resultado das colaborações na página do Facebook «Escrita de microficção», no blogue «77 palavras» e outros. [Todos os textos são redigidos em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
O bife do lombo supersticioso
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
O croquete que ganhou a Volta a Portugal
Um croquete apaixonou-se perdidamente por uma bela batata frita, alta, loura e bronzeada, e decidiu pedir-lhe namoro. Mas a batata frita era adepta do sexo alternativo e optara por estabelecer relações apenas com outras batatas fritas iguais a ela.
Com o desgosto, o croquete pensou em mil e uma maneiras de pôr termo à vida. Até que decidiu ir fazer parapente lançando-se do Sítio da Nazaré …mas sem o parapente. Pegou na sua bicicleta e pedalou furiosamente em direcção àquela famosa estância balnear.
A certa altura, o croquete vislumbrou uma chusma de ciclistas que o perseguiam a alta velocidade. Assustado, pedalou ainda mais energicamente, tentando escapar-se àquilo que ele pensava ser uma acção punitiva de um bando rival.
Tanto se empenhou a fazer girar a roda pedaleira, que cortou a meta da Volta a Portugal em primeiro e ganhou a camisola amarela. E descobriu que os seus supostos perseguidores eram, afinal, os restantes concorrentes à Volta.
Hoje, o afortunado croquete dedica-se ao ciclismo, com o patrocínio de uma conhecida marca de produtos alimentares. E é alvo das atenções das mais desejadas batatas fritas.
Com o desgosto, o croquete pensou em mil e uma maneiras de pôr termo à vida. Até que decidiu ir fazer parapente lançando-se do Sítio da Nazaré …mas sem o parapente. Pegou na sua bicicleta e pedalou furiosamente em direcção àquela famosa estância balnear.
A certa altura, o croquete vislumbrou uma chusma de ciclistas que o perseguiam a alta velocidade. Assustado, pedalou ainda mais energicamente, tentando escapar-se àquilo que ele pensava ser uma acção punitiva de um bando rival.
Tanto se empenhou a fazer girar a roda pedaleira, que cortou a meta da Volta a Portugal em primeiro e ganhou a camisola amarela. E descobriu que os seus supostos perseguidores eram, afinal, os restantes concorrentes à Volta.
Hoje, o afortunado croquete dedica-se ao ciclismo, com o patrocínio de uma conhecida marca de produtos alimentares. E é alvo das atenções das mais desejadas batatas fritas.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
A panela de sopa que chegou a secretária de estado
Aquando da constituição do novo governo, uma panela de sopa pegou no cartão do partido e foi pedir satisfações ao primeiro-ministro recém-eleito: que sempre tinha sido uma militante dedicada, que se fartara de colar cartazes, de distribuir panfletos e autocolantes e até gastara o seu latim a tentar convencer os eleitores da rectidão do programa eleitoral. E o resultado estava à vista: maioria absoluta! Decerto que ela merecia um lugarzinho no novo governo.
- Uma panela de sopa? Mas a senhora não se enxerga? Ainda se fosse um tacho… Ora esta! - retorquiu o primeiro-ministro.
Mas a panela de sopa não se deixou intimidar e respondeu-lhe:
- Não se abespinhe, que não vale a pena. Sou uma mera panela de sopa, mas já matei a fome a muita gente.
E o primeiro-ministro teve que se render às evidências, nomeando a panela de sopa para Secretária de Estado da Alimentação.
- Uma panela de sopa? Mas a senhora não se enxerga? Ainda se fosse um tacho… Ora esta! - retorquiu o primeiro-ministro.
Mas a panela de sopa não se deixou intimidar e respondeu-lhe:
- Não se abespinhe, que não vale a pena. Sou uma mera panela de sopa, mas já matei a fome a muita gente.
E o primeiro-ministro teve que se render às evidências, nomeando a panela de sopa para Secretária de Estado da Alimentação.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
Morte trágica de um rabanete asmático
Havia um rabanete que sofria de asma. O pobre legume não podia fazer esforços mais pesados ou ficava logo com falta de ar e a tossir desesperadamente. Não podia andar de bicicleta, carregar pesos, subir escadas, engraxar os sapatos… Resumindo, tinha um sem número de limitações que lhe tornavam a vida muito penosa.
Depois de vários dias ao relento nas filas do posto médico, lá conseguiu uma consulta onde lhe receitaram uma bomba para asmáticos, o que lhe permitiu melhorar substancialmente a sua qualidade de vida.
Tudo corria agora muito melhor ao rabanete, dado que conseguia controlar a asma e podia assim desempenhar algumas tarefas que até aí lhe estavam vedadas.
Ora, aconteceu que um dia se esqueceu da bomba no autocarro que o trazia do trabalho. Quando se lembrou, já o veículo ia em andamento. O rabanete enervou-se, pôs-se a correr atrás do autocarro aos gritos e acabou por desmaiar com falta de ar. E o pior aconteceu quando um condutor apressado lhe passou por cima e o reduziu a puré.
Enfim, uma tragédia!
Depois de vários dias ao relento nas filas do posto médico, lá conseguiu uma consulta onde lhe receitaram uma bomba para asmáticos, o que lhe permitiu melhorar substancialmente a sua qualidade de vida.
Tudo corria agora muito melhor ao rabanete, dado que conseguia controlar a asma e podia assim desempenhar algumas tarefas que até aí lhe estavam vedadas.
Ora, aconteceu que um dia se esqueceu da bomba no autocarro que o trazia do trabalho. Quando se lembrou, já o veículo ia em andamento. O rabanete enervou-se, pôs-se a correr atrás do autocarro aos gritos e acabou por desmaiar com falta de ar. E o pior aconteceu quando um condutor apressado lhe passou por cima e o reduziu a puré.
Enfim, uma tragédia!
domingo, 6 de janeiro de 2008
O doutoramento do torresmo
Concluiu o seu doutoramento, por unanimidade e aclamação, na Universidade Independente, um naco de toucinho de Chaves. A tese, considerada pioneira no nosso país, versa a temática da salinização do presunto curado e o contributo das folhas de louro para a caracterização dos sabores nortenhos.
O naco de toucinho foi levado em ombros pelos seus pares e promovido a torresmo pelo processo tradicional, num tacho de barro adequado a esse fim. Diz quem teve o privilégio de assistir ao evento que os odores libertados eram de fazer crescer água na boca.
O naco de toucinho foi levado em ombros pelos seus pares e promovido a torresmo pelo processo tradicional, num tacho de barro adequado a esse fim. Diz quem teve o privilégio de assistir ao evento que os odores libertados eram de fazer crescer água na boca.
sábado, 5 de janeiro de 2008
Revolta na salada de mexilhões
Nem tudo corre bem na salada de mexilhões. Tal como noutros sistemas fechados, também aqui há quem se demarque da linha oficial e se arrogue o direito de manifestar opinião diversa. Foi o que aconteceu a uma rodela de cebola, que criou um movimento dissidente clandestino com o objectivo de protestar contra o actual estado de coisas.
Durante uma manifestação não autorizada, foram feitas várias prisões e dos detidos nunca mais se soube nada. O que leva as organizações humanitárias a acusar as autoridades locais de ter eliminado fisicamente os oposicionistas. Os protestos chegaram mesmo às Nações Unidas, mas as entidades oficiais negam qualquer responsabilidade.
O que é certo é que os inspectores da ASAE, da última vez que inspeccionaram a salada de mexilhões, notaram que as coisas já não cheiravam nada bem.
Durante uma manifestação não autorizada, foram feitas várias prisões e dos detidos nunca mais se soube nada. O que leva as organizações humanitárias a acusar as autoridades locais de ter eliminado fisicamente os oposicionistas. Os protestos chegaram mesmo às Nações Unidas, mas as entidades oficiais negam qualquer responsabilidade.
O que é certo é que os inspectores da ASAE, da última vez que inspeccionaram a salada de mexilhões, notaram que as coisas já não cheiravam nada bem.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
O gaspacho que foi eleito papa
Sobre um país distante, abateu-se uma violenta seca que desertificou os campos e deixou a população quase sem nada para comer.
Houve um dia que restavam apenas cinco tomates maduros, um pimento verde, um pepino, uma cebola, quatro dentes de alho, uma pitada de sal, um restinho de azeite, uma pinga de vinagre de vinho, um molhinho de orégãos e três fatias de pão de véspera.
Reunido o Conselho de Estado, foi decido juntar tudo e fazer um gaspacho, porque já não havia dinheiro para o gás, o que permitiria fazer uma sopa quente. O gaspacho foi então distribuído à população faminta que o saboreou deliciada. Houve até quem lambesse a terrina.
Fez-se depois um concurso onde se decidiu canonizar tão sublime iguaria, que havia salvo o povo da inanição. E foi assim que, naquele país, o gaspacho foi eleito a melhor papa de sempre.
Houve um dia que restavam apenas cinco tomates maduros, um pimento verde, um pepino, uma cebola, quatro dentes de alho, uma pitada de sal, um restinho de azeite, uma pinga de vinagre de vinho, um molhinho de orégãos e três fatias de pão de véspera.
Reunido o Conselho de Estado, foi decido juntar tudo e fazer um gaspacho, porque já não havia dinheiro para o gás, o que permitiria fazer uma sopa quente. O gaspacho foi então distribuído à população faminta que o saboreou deliciada. Houve até quem lambesse a terrina.
Fez-se depois um concurso onde se decidiu canonizar tão sublime iguaria, que havia salvo o povo da inanição. E foi assim que, naquele país, o gaspacho foi eleito a melhor papa de sempre.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
A patanisca que queria ingressar na função pública
Farta do cheiro a fritos da tasca onde nascera, uma patanisca de bacalhau decidiu ingressar na função pública.
Procurou no jornal da terra se havia vagas nalguma repartição e, depois de identificar duas ou três hipóteses, preparou-se para concorrer a um lugar de topógrafo municipal.
Elaborou um imenso currículo com todas as suas habilitações e realizações profissionais, a que juntou fotocópias dos respectivos certificados. Explicou ainda que sabia muito bem o que era um teodolito. Aliás, que tinha mesmo sido noiva de um, mas que este batera a asa para a ilha da Madeira e nunca mais voltara, o infame. Que, no entanto, não guardava ressentimento e estava disposta a esquecer o incidente.
Quase no final do prazo do concurso, meteu-se na longa fila que dava a volta ao quarteirão e esperou a sua vez. Conseguiu entregar a sua candidatura quando o guiché estava quase a fechar.
Mas de nada lhe valeu. A Câmara contratou o teodolito, que entretanto havia voltado das ilhas. É que este sempre era da terra e trazia uma carta de recomendação do Governo Regional.
Procurou no jornal da terra se havia vagas nalguma repartição e, depois de identificar duas ou três hipóteses, preparou-se para concorrer a um lugar de topógrafo municipal.
Elaborou um imenso currículo com todas as suas habilitações e realizações profissionais, a que juntou fotocópias dos respectivos certificados. Explicou ainda que sabia muito bem o que era um teodolito. Aliás, que tinha mesmo sido noiva de um, mas que este batera a asa para a ilha da Madeira e nunca mais voltara, o infame. Que, no entanto, não guardava ressentimento e estava disposta a esquecer o incidente.
Quase no final do prazo do concurso, meteu-se na longa fila que dava a volta ao quarteirão e esperou a sua vez. Conseguiu entregar a sua candidatura quando o guiché estava quase a fechar.
Mas de nada lhe valeu. A Câmara contratou o teodolito, que entretanto havia voltado das ilhas. É que este sempre era da terra e trazia uma carta de recomendação do Governo Regional.
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
A colher de pau refractária
Uma colher de pau foi apurada para a tropa. Uma semana antes da data em que tinha de se apresentar à recruta, fez a trouxa e pôs-se a caminho do quartel de Mafra. E lá foi aos saltinhos num só pé, que é o que fazem todas as colheres de pau quando têm de se deslocar pelos seus próprios meios.
Passou o primeiro dia e não havia meio de lá chegar. Passou o segundo dia e não havia meio de lá chegar. Passou o terceiro dia e não havia meio de lá chegar. Passou o quarto dia e não havia meio de lá chegar. Ao quinto dia ainda ela estava demasiado longe do seu destino, mas suficientemente perto de casa para voltar para trás. E foi o que fez.
O que é estranho é que nunca deram pela sua falta. Uma colher de pau podia dar muito jeito na resolução de alguns dos mais graves conflitos mundiais!
Passou o primeiro dia e não havia meio de lá chegar. Passou o segundo dia e não havia meio de lá chegar. Passou o terceiro dia e não havia meio de lá chegar. Passou o quarto dia e não havia meio de lá chegar. Ao quinto dia ainda ela estava demasiado longe do seu destino, mas suficientemente perto de casa para voltar para trás. E foi o que fez.
O que é estranho é que nunca deram pela sua falta. Uma colher de pau podia dar muito jeito na resolução de alguns dos mais graves conflitos mundiais!
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