sábado, 5 de janeiro de 2008

Revolta na salada de mexilhões

Nem tudo corre bem na salada de mexilhões. Tal como noutros sistemas fechados, também aqui há quem se demarque da linha oficial e se arrogue o direito de manifestar opinião diversa. Foi o que aconteceu a uma rodela de cebola, que criou um movimento dissidente clandestino com o objectivo de protestar contra o actual estado de coisas.
Durante uma manifestação não autorizada, foram feitas várias prisões e dos detidos nunca mais se soube nada. O que leva as organizações humanitárias a acusar as autoridades locais de ter eliminado fisicamente os oposicionistas. Os protestos chegaram mesmo às Nações Unidas, mas as entidades oficiais negam qualquer responsabilidade.
O que é certo é que os inspectores da ASAE, da última vez que inspeccionaram a salada de mexilhões, notaram que as coisas já não cheiravam nada bem.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

O gaspacho que foi eleito papa

Sobre um país distante, abateu-se uma violenta seca que desertificou os campos e deixou a população quase sem nada para comer.
Houve um dia que restavam apenas cinco tomates maduros, um pimento verde, um pepino, uma cebola, quatro dentes de alho, uma pitada de sal, um restinho de azeite, uma pinga de vinagre de vinho, um molhinho de orégãos e três fatias de pão de véspera.
Reunido o Conselho de Estado, foi decido juntar tudo e fazer um gaspacho, porque já não havia dinheiro para o gás, o que permitiria fazer uma sopa quente. O gaspacho foi então distribuído à população faminta que o saboreou deliciada. Houve até quem lambesse a terrina.
Fez-se depois um concurso onde se decidiu canonizar tão sublime iguaria, que havia salvo o povo da inanição. E foi assim que, naquele país, o gaspacho foi eleito a melhor papa de sempre.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

A patanisca que queria ingressar na função pública

Farta do cheiro a fritos da tasca onde nascera, uma patanisca de bacalhau decidiu ingressar na função pública.
Procurou no jornal da terra se havia vagas nalguma repartição e, depois de identificar duas ou três hipóteses, preparou-se para concorrer a um lugar de topógrafo municipal.
Elaborou um imenso currículo com todas as suas habilitações e realizações profissionais, a que juntou fotocópias dos respectivos certificados. Explicou ainda que sabia muito bem o que era um teodolito. Aliás, que tinha mesmo sido noiva de um, mas que este batera a asa para a ilha da Madeira e nunca mais voltara, o infame. Que, no entanto, não guardava ressentimento e estava disposta a esquecer o incidente.
Quase no final do prazo do concurso, meteu-se na longa fila que dava a volta ao quarteirão e esperou a sua vez. Conseguiu entregar a sua candidatura quando o guiché estava quase a fechar.
Mas de nada lhe valeu. A Câmara contratou o teodolito, que entretanto havia voltado das ilhas. É que este sempre era da terra e trazia uma carta de recomendação do Governo Regional.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

A colher de pau refractária

Uma colher de pau foi apurada para a tropa. Uma semana antes da data em que tinha de se apresentar à recruta, fez a trouxa e pôs-se a caminho do quartel de Mafra. E lá foi aos saltinhos num só pé, que é o que fazem todas as colheres de pau quando têm de se deslocar pelos seus próprios meios.
Passou o primeiro dia e não havia meio de lá chegar. Passou o segundo dia e não havia meio de lá chegar. Passou o terceiro dia e não havia meio de lá chegar. Passou o quarto dia e não havia meio de lá chegar. Ao quinto dia ainda ela estava demasiado longe do seu destino, mas suficientemente perto de casa para voltar para trás. E foi o que fez.
O que é estranho é que nunca deram pela sua falta. Uma colher de pau podia dar muito jeito na resolução de alguns dos mais graves conflitos mundiais!